Contra o Furacão: vale seu tempo na Netflix?

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Matheus Magalhães

Contra o Furacão mistura a tensão de um desastre natural com o drama de dois irmãos. Eu conto se o filme da Netflix vale o seu tempo e pra quem ele é.

Wirpul (Benny Emmanuel) com o rosto franzido e a boca entreaberta, de cabelo molhado e jaqueta escura, em meio à tempestade em cena de Contra o Furacão.

Filmes de desastre natural conseguem me prender na tela. Contra o Furacão(2026) faz isso, mas com um toque a mais: no meio de uma tempestade que vira um furacão de categoria 5, o que mais me pegou foi ver a relação entre dois irmãos presos em um iate e sem motor.

Pelo que vi diante dos meus olhos, e por ser inspirado em fatos reais, ele com certeza vale o seu tempo. Vale não só o dos brasileiros: o filme está em alta em outros 51 países. Então, se você é do tipo de pessoa que curte tensão e, ao mesmo tempo, quer um desastre que acaba mexendo com o seu coração, você com certeza gostaria de conhecer Contra o Furacão.

Um pouco sobre Contra o Furacão

Wirpul (Benny Emmanuel) é um jovem marinheiro de Acapulco que acabou de ser promovido a capitão de um iate, tendo pouca experiência no cargo. Durante uma tempestade tropical que vai ficando cada vez mais forte, ele se vê preso no mar com Candi (Kristyan Ferrer), o meio-irmão com quem tem uma relação desgastada por anos de conflito familiar.

Sem motor, sem comunicação e sem rumo, os dois precisam sobreviver quando a tempestade vira um furacão de categoria 5. No meio do caos, o maior desafio talvez nem seja o furacão, mas sim superar as suas diferenças pra sobreviver.

Ficção e realidade no centro de Acapulco

O filme é inspirado no que aconteceu quando veio o furacão Otis, que atingiu Acapulco, no México, em 25 de outubro de 2023. Ele foi um furacão de categoria 5, que, pra quem não entende, é a mais alta da escala dos furacões. Em dezembro de 2023, a governadora de Guerrero, Evelyn Salgado, apresentou o balanço oficial do que aconteceu com o Otis: 52 mortos e 32 desaparecidos. O Mexico News Daily conta que, dos desaparecidos, 31 estavam no mar e muitos eram tripulantes de iates.

O Otis pegou todo mundo de surpresa. Cerca de 16 horas antes de chegar, a previsão era de um furacão bem mais fraco, de categoria 1, mas, quando ele bateu em Acapulco, era um furacão de categoria 5, foi a mesma virada rápida que o filme coloca em cena. Uma das explicações possíveis é um fenômeno que tem dado muito o que falar na mídia, o chamado El Niño, que nada mais é que um aquecimento das águas do Oceano Pacífico acima do normal.

O NOAA, a agência do clima e dos oceanos dos Estados Unidos, conta que o El Niño pode afetar o tempo no mundo todo e acontece, em média, a cada 2 a 7 anos. O Smithsonian conta que o mar perto do Otis estava mais quente que a média e que isso pode ter ajudado a tempestade a ganhar a força de um furacão.

A base de toda a história, pra além do Otis, também é real. Os marinheiros Marlon Alfonso Valdez e Jonathan Chino enfrentaram de verdade esse furacão em barcos diferentes, o que rendeu a eles até uma aparição no filme. Mas, diferente do que acontece no filme, os dois não são irmãos brigando entre si, e sim amigos e colegas de trabalho.

Como conseguiram criar cenas tão reais em estúdio?

O Tudum, site da Netflix, conta que as filmagens duraram sete semanas, entre o Porto de Acapulco e um estúdio na Cidade do México. Lá, a equipe construiu três barcos, entre eles um sobre uma plataforma móvel e outro dentro de um tanque de 200 m² com água, usando ventiladores potentes pra fazer o vento.

O diretor Jorge Michel Grau fez até uma animação do filme inteiro, parecida com um videogame, pra conseguir planejar as cenas. O Produ conta que o filme tem mais de 600 planos com efeitos visuais, um sistema mecânico pra balançar o iate e o maior bluescreen já montado nos Estúdios Churubusco, o que ajudou a trocar o fundo azul por imagens feitas no computador.

O diretor de fotografia, Álex de Pablo, usou uma câmera no ombro e sem tripé pra deixar a imagem mais balançada e mais perto da ação. Ele a posicionou bem perto dos protagonistas, pra que o público fosse capaz de se sentir dentro do barco. O efeito, com certeza, não só impressiona, ele também funciona.

Quando a tempestade revela quem cada um é

Wirpul (Benny Emmanuel) em close, com expressão séria e o olhar ligeiramente desviado, vestindo uma camisa verde-escura, em cena de Contra o Furacão.

Pra mim, Contra o Furacão é um filme muito bom. O que o separa de outros filmes de desastre é que ele não foca só no desastre natural em si. Claro que a tempestade e o furacão estão lá o tempo todo, mas o que mais me prendeu foi tudo o que se revela graças a esse fenômeno da natureza, não só sobre as pessoas, mas também sobre o próprio México.

Dentre as críticas do filme, a que me soou mais clara e forte foi a da desigualdade social. A relação entre o dono do iate e o marinheiro é uma relação construída através do poder: de um lado, quem tem o dinheiro e vê o iate como um bem valioso; do outro, quem trabalha pra ele e depende desse emprego pra sobreviver.

Essa diferença de poder atravessa várias relações dentro do México. Por isso, achei importante o filme ter demonstrado o que acontece quando o dinheiro pesa mais do que a vida de quem trabalha: as pessoas acabam se machucando, se ferindo e até morrendo nesse processo.

O filme também fala sobre família, e o tema não é banalizado nem tratado como algo simples. A relação entre os irmãos é bem pesada, justamente porque eles enxergam o mundo de jeitos bem diferentes. Além disso, é muito difícil olhar pro outro com empatia quando se carregam mágoas antigas, que vêm da herança do pai.

Na minha leitura, a tempestade é uma metáfora de tudo isso. Ela não cria os problemas dos personagens, só deixa tudo muito mais visível, tanto a diferença entre os irmãos quanto a distância entre quem manda e quem obedece no México.

Eu adoro esse gênero e, em muitos filmes de desastre, o que sobra é só destruição. Aqui, o que ficou comigo depois foi pensar em quem está protegido quando a natureza ataca e em quem fica exposto. Acho que foi esse o detalhe que fez o filme ficar na minha cabeça por muito mais tempo.

Outro ponto positivo é o ritmo. O filme me deixou sem fôlego justamente porque toda a história foi concentrada no mar. O jogo de câmeras foi tão real que me senti no meio da tempestade o tempo todo, como se alguém tivesse me jogado dentro daquela água e me mandado nadar. Em nenhum momento tive a sensação de estar vendo um filme sendo dirigido, e sim de estar mergulhando junto deles. 

Além de ver as relações familiares e de trabalho construídas no México, consegui ver o país de um jeito muito mais respeitoso do que costumo ver quando assisto a filmes americanos. O diretor não usa, durante a narrativa, aquele tom amarelado que os norte-americanos costumam usar quando falam do México, o que trouxe mais realidade pra tela. Foi uma experiência nova pra mim, porque vejo poucos filmes mexicanos, mas foi muito positivo sair da casinha dos Estados Unidos.

No final, muito dessa história me lembrou do Brasil, onde tem bastante gente que vive um dia de cada vez, com famílias desesperadas pra conseguir não só sobreviver, mas viver. Acho que o brasileiro, graças a isso, consegue criar uma grande conexão com essa história.

Contra o Furacão vale seu tempo?

Vale muito, principalmente pra quem quer um filme de desastre que também tenha bastante emoção. A tensão está lá, mas vem junto de um drama familiar e uma crítica social. Eu recomendo principalmente pra quem gosta daquele tipo de filme que não deixa tirar o olho da tela até o desfecho.

Se você curte o gênero, tem muita coisa boa pra ver depois. Terremoto: A Falha de San Andreas (2015), com o The Rock, tem a mesma pegada de sobrevivência. O Impossível (2012) é um bom caminho pra quem curte tsunami e drama de família, só que, nesse caso, a destruição é em terra.2012 (2009) e Impacto Profundo (1998) são clássicos do gênero. Vidas à Deriva(2018) mostra um casal pego por um furacão no Pacífico, e A Onda (2015), da Noruega, coloca uma cidade diante de um tsunami. Então, pra quem prefere a vida como ela é, When the Levees Broke (2006) é um documentário da HBO, dirigido por Spike Lee, sobre o furacão Katrina e o que aconteceu depois em Nova Orleans.

Um alerta: a briga entre os irmãos ocupa bastante espaço, então, se você quer ver só ação e destruição, sem muito drama no meio, vale saber disso antes de dar o play. Mas, se você gosta dessa mistura de gêneros, não perca mais tempo: comece a assistir agora.

Contra o Furacão (Contra el huracán) | 2026 | Direção: Jorge Michel Grau | Onde assistir: Netflix

Perguntas Frequentes

Contra o Furacão é baseado em fatos reais?
É inspirado no furacão Otis, que atingiu Acapulco, no México, em 25 de outubro de 2023, com categoria 5. A base da história também é real: os marinheiros Marlon Alfonso Valdez e Jonathan Chino enfrentaram o Otis em barcos diferentes. Só que, na vida real, eles são amigos e colegas de trabalho, e não irmãos. A relação entre Wirpul e Candi é ficção.
Onde assistir Contra o Furacão?
O filme é exclusivo da Netflix.
Onde foram gravadas as cenas da tempestade?
O Tudum, site da Netflix, conta que as filmagens duraram sete semanas, entre o Porto de Acapulco e um estúdio na Cidade do México. No estúdio, a equipe usou um tanque de 200 m² com água e ventiladores potentes pra fazer o vento.

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