Undertone: terror sobrenatural criativo com podcast assustador
Com uma história sobrenatural tenebrosa, uma entidade demoníaca pouco conhecida e um trabalho de som excepcional, Undertone transforma um podcast em uma experiência aterrorizante.

Undertone (2026) é um filme de terror sobrenatural, dirigido por Ian Tuason, que transforma gravações de áudio de um podcast paranormal em uma experiência de horror imersiva e assustadora. O filme protagonizado por Nina Kiri aposta no medo do desconhecido, no folclore demoníaco e em um trabalho de som que faz até os menores ruídos parecerem ser ameaçadores.
Desde o primeiro anúncio do filme, fiquei curioso pra assistir, porque acho muito interessante essa nova onda de histórias de terror contadas por meio de podcasts e produções em áudio. Infelizmente, Undertone não chegou aos cinemas brasileiros, mas deveria! Encontrei o longa no catálogo da HBO Max e tive uma experiência de terror muito positiva.
Qual é a história de Undertone?
Em Undertone, acompanhamos Evy Babic (Nina Kiri), uma apresentadora cética de um podcast sobre histórias paranormais que divide o programa com seu amigo Justin (Adam DiMarco). Enquanto cuida de sua mãe doente (Michèle Duquet), em sua antiga casa de infância, Evy recebe uma série de gravações misteriosas enviadas por uma fonte anônima.
Os áudios registram acontecimentos sobrenaturais vividos por um casal, Jessa (Keana Lyn Bastidas) e Mike (Jeff Yung). Conforme Evy e Justin investigam as gravações e tentam entender o que tá acontecendo, a apresentadora percebe semelhanças perturbadoras entre os relatos e sua própria realidade. Aos poucos, os sons começam a ultrapassar os limites dos fones de ouvido e transformar sua rotina em um verdadeiro tormento.
Undertone: trabalho de som, folclore sombrio e o set de filmagem
O som como ferramenta de terror
Se existe um elemento que merece destaque em Undertone, como o próprio título já diz, é o trabalho de som. O diretor Ian Tuason construiu a experiência sonora do filme desde o roteiro, especificando não apenas quais sons deveriam aparecer, mas também de onde eles deveriam vir e como se moveriam pelo ambiente. Um choro de bebê poderia surgir atrás do espectador, enquanto o barulho de um corpo caindo no andar de baixo deveria atravessar o espaço da direita pra esquerda.
Uma curiosidade interessante é que Nina Kiri realmente ouviu os arquivos de áudio pela primeira vez durante as filmagens. O designer de som, Dane Kelly, preparou as gravações antes do início da produção e a atriz utilizou fones de ouvido com cancelamento de ruído pra ficar isolada do ambiente ao redor e reagir de maneira espontânea. A ideia de usar músicas e gravações reproduzidas ao contrário veio de uma subcultura encontrada por Tuason no YouTube, na qual pessoas procuram mensagens escondidas em músicas invertidas (fãs de Xuxa vão se identificar aqui!). O diretor transformou essa prática em uma das principais mecânicas de terror da história, explorando a chamada apofenia auditiva, que é a nossa tendência de encontrar significados e padrões em sons aleatórios. A mixagem também ganhou uma experiência imersiva em Dolby Atmos na pós-produção.
Quem é Abyzou, a entidade demoníaca de Undertone?
Sem entrar em spoilers, a entidade sobrenatural que movimenta os acontecimentos de Undertone é Abyzou, uma figura feminina da demonologia europeia e do Oriente Médio. Nas tradições antigas, ela é associada a abortos espontâneos, infertilidade e à mortalidade de bebês e crianças, sendo frequentemente retratada como uma entidade movida pela inveja da maternidade.
Uma de suas principais referências literárias aparece no Testamento de Salomão, texto religioso de autoria e datação discutidas por estudiosos. Sua figura também apresenta possíveis conexões com Lamashtu, uma entidade da antiga Mesopotâmia conhecida por ameaçar mulheres grávidas e crianças.
Ao longo dos séculos, Abyzou recebeu diferentes nomes e interpretações em tradições religiosas e textos antigos. É esse imaginário folclórico que foge das representações demoníacas mais tradicionais do cinema de terror que torna a ameaça do filme mais interessante.
Undertone foi filmado na casa de infância do diretor Ian Tuason
Outro detalhe que acrescenta uma camada bastante pessoal ao filme é o local escolhido pras filmagens. Undertone foi rodado inteiramente na casa de infância de Ian Tuason, em Rexdale, Toronto, o mesmo lugar onde o cineasta cuidou de seus pais durante o período em que enfrentaram doenças terminais.
Originalmente, Tuason pretendia transformar uma produção de áudio em um roteiro de longa-metragem, mas a pandemia de COVID-19 e o fechamento das clínicas médicas em Toronto mudaram seus planos. Ele precisou voltar pra casa e assumir os cuidados dos pais, experiência que acabou se tornando o centro emocional da história.
Até mesmo o financiamento da produção carrega essa relação pessoal, já que parte do orçamento do filme veio da herança recebida após a morte de seu pai. Assim, a casa do filme, pra além de cenário, representa também uma parte muito íntima da experiência do diretor que deu origem ao longa.
Undertone é um terror que me deixou genuinamente assustado

Undertone teve uma divulgação tímida e não gerou muitas expectativas pra mim. Talvez por isso tenha sido tão surpreendente assistir ao filme e perceber que ele foi muito além do que eu esperava. Fazia tempo que um terror não me deixava tão assustado.
O roteiro é competente ao contar uma história simples, mas são o trabalho de mixagem de som e a direção de fotografia que elevam a experiência de algo aparentemente comum pra algo insano. A direção de câmera aposta em ângulos inventivos que fazem questão de direcionar nosso olhar pros cantos mais escuros daquele cenário pequeno e fechado. É como se o filme estivesse constantemente sugerindo que existe alguma coisa escondida ali. E essa tensão só cresce.
A mixagem de som é excepcional, o que considero o mínimo esperado de um filme que constrói seu terror a partir do áudio, né? Ouvimos ruídos esquisitos, vozes e, é claro, as gravações do próprio podcast. Tudo tem uma qualidade absurda e contribuiu pra me inserir naquela atmosfera de um jeito bizarro.
A história também traz uma camada de drama familiar, como bons filmes de terror costumam fazer, mas o que realmente me deixou vidrado na tela foi o folclore por trás da entidade sobrenatural. Eu nunca tinha ouvido falar de Abyzou e gostei muito de conhecer uma nova entidade, que age de maneiras um pouco diferentes dos demônios que estamos acostumados a encontrar no cinema.
A criatividade de usar uma gravação de áudio como ferramenta pra atrair e aterrorizar suas vítimas funciona muito bem. Foi especialmente divertido (e tenebroso) acompanhar a história sem fazer ideia de pra onde ela estava caminhando, se eu finalmente veria uma representação física da entidade ou qual seria o desfecho daquela tortura.
Undertone vale seu tempo?
Undertone com certeza vale seu tempo! Se você é fã de podcasts de terror, histórias sobrenaturais e folk horror (em português, terror folclórico), o filme é um prato cheio. É uma experiência que brinca com a nossa imaginação e prova que nem sempre precisamos enxergar o monstro pra sentir medo dele.
Se você gostou de O Podcast (Monolith, 2023), pela relação entre narrativa e gravações de áudio, Pontypool: Pesadelo Zumbi (Pontypool, 2009), pelo terror construído a partir do som e da comunicação, A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999), pelo medo do que não conseguimos ver, e A Autópsia (The Autopsy of Jane Doe, 2016), pela atmosfera claustrofóbica e mistério sobrenatural, Undertone tem grandes chances de funcionar muito bem pra você.
Aumente o volume da sua TV no último… se tiver coragem, apague as luzes e dê o play!
Undertone | 2026 | Direção: Ian Tuason | 1h 34min | Classificação: 14+ | Onde assistir: HBO Max
Perguntas Frequentes
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