Elize: Sombras de uma Mulher, vítima ou monstro?

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Lucas Santana

Marcos Matsunaga (Henrique Kimura) e Elize Matsunaga (Lorena Comparato) segurando rifles em cena de Elize: Sombras de uma Mulher.

Não tem como assistir Elize: Sombras de uma Mulher (2026) sem lembrar que aquela história aconteceu de verdade, e é exatamente esse desconforto que o filme carrega do início ao fim. O time que produziu não quer te dar uma resposta fácil sobre quem é a vilã e quem é a vítima dessa história.

O que acontece em Elize: Sombras de uma Mulher

Elize (Lorena Comparato) deixa a prostituição pra se casar com o empresário milionário Marcos Matsunaga (Henrique Kimura). O casamento que parecia um conto de fadas nunca é aceito pela família dele, por isso, aos poucos, a relação vai se transformando numa sequência de traições, ciúme e agressões constantes, até o desfecho que terminou em tragédia.

O caso real por trás de Elize

Se você tem mais de 25 anos, provavelmente lembra do nome Matsunaga estampado em capa de revista. Marcos Kitano Matsunaga era herdeiro da Yoki, a sua morte em maio de 2012 virou um dos crimes mais comentados da história recente do Brasil. Elize confessou o assassinato, o que fez a Justiça dar uma condenação de quase 20 anos de prisão pra ela. Anos depois, o STJ reduziu a pena pra 16 anos e 3 meses, considerando o fato de a confissão ter sido espontânea. Elize cumpriu 10 anos em regime fechado até conseguir a condicional em 2022. Hoje, leva uma vida discreta no interior de São Paulo, usando o sobrenome de solteira.

Um detalhe que talvez você não saiba: em 2021, ainda presa, Elize topou dar sua primeira entrevista na minissérie documental Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, também da Netflix. Foi ali que ela disse, pela primeira vez em público, que infelizmente não pode consertar o que passou, mas está tendo uma segunda chance que Marcos não teve.

Por que ninguém concorda sobre Elize

Vinte e cinco dias antes do crime, Elize ligou pra Polícia Militar dizendo que o marido fez ameaças e perguntou se podia trocar a fechadura de casa. O atendente respondeu que Marcos tinha direito de entrar, porque os dois eram casados há cinco anos. Esse detalhe real é um dos motivos que faz o público se dividir tanto até hoje: quem acompanha os debates sobre o filme percebe que boa parte das mulheres tende a enxergar aquela ligação como prova de um ciclo de violência sem saída, enquanto boa parte dos homens vê ali só mais uma peça de um crime premeditado.

Como recriar uma tragédia sem virar espetáculo

Falar desse assassinato não é só falar de um caso antigo de revista. O número vem de um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: o Brasil bateu recorde de feminicídio em 2025, com 1.568 casos registrados. Dados da ONU colocam o país entre os primeiros do ranking mundial. É esse peso que torna qualquer adaptação desse tipo de história uma responsabilidade, não só um gancho de audiência.

Dá pra sentir que a produção levou isso a sério. Lorena Comparato passou por 40 dias de ensaio antes das filmagens e teve o apoio de uma preparadora de intimidade pra rodar a cena do crime, considerada por ela a mais difícil do processo. A equipe também recriou as imagens reais das câmeras de segurança do prédio onde o casal morava, sem transformar isso num espetáculo morboso. A semelhança física entre elenco e pessoas reais reforça essa sensação de estar vendo uma reconstituição cuidadosa, não uma caricatura.

Por que entendo (mas não absolvo) Elize

Não acho que ela premeditou o crime. A forma como vivia, isolada, sem amigos, ao lado de um marido agressivo e infiel, monta o quadro de alguém que chega ao limite. Ela parece ter criado a fantasia de que o marido não faria com ela o que já tinha feito com a ex-esposa. Talvez esse tenha sido o erro mais caro da história toda. O ciúme cegou tanto que ela deixou de enxergar saídas mais simples pra aquele problema.

Também dá pra entender o medo dela de perder a guarda da filha numa separação, mesmo que, com orientação certa, essa situação pudesse ter tido outro caminho. O isolamento é o que mais pesa: Elize passa o filme inteiro desconectada de qualquer rede de apoio. No fim, resolve tudo do jeito mais rápido que conhece: sozinha. Isso custou o resto da vida dela, inclusive o que ela mais temia perder.

Vale seu tempo?

A história é boa e prende. Mas a produção deixa a desejar: tem alguns furos de roteiro e uma continuidade meio confusa, como se tivessem tentado contar uma história grande demais em pouco tempo. Isso me lembrou bastante O Despertar de um Assassino (My Friend Dahmer, 2017), que também tenta resumir anos da formação de um assassino real sem deixar claro o tamanho de tudo que fica de fora.

Valeu meu tempo porque sou curioso e gosto desse tipo de reconstituição. Mas se você só quer passar o tempo sem se aprofundar, talvez esse não seja um grande filme pra você.

Elize: Sombras de uma Mulher | 2026 | Direção: Felipe Vellas | 1h33 | Classificação: 16 anos | Onde assistir: Netflix

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