A hora da estrela: o filme pra chorar sem perceber

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Dani Vieira

Baseado em Clarice Lispector e estrelado por Marcélia Cartaxo, A hora da estrela é o tipo de filme que a gente não esquece. Vamos explicar o porquê vale.

Marcélia Cartaxo como Macabéa em A hora da estrela, mulher sentada com um hibisco rosa nas mãos, olhando para o lado em meio a vegetação.

A gente costuma saber quando vai chorar ao assistir um filme. Tem aquela música, aquele close, aquela fala construída pra apertar o coração. A hora da estrela (1985) não funciona assim.

Você vai assistir achando que está seguro e, em algum momento, sem aviso, percebe que está com os olhos cheios d'água por uma moça nordestina que não consegue nem saber direito o que quer da vida.

Esse é o tipo de choro mais honesto que o cinema provoca: o que você não consegue explicar direito, o que aperta antes de você entender o por quê. 

Antes do filme, tinha um livro impossível

A autora Clarice Lispector publicou A hora da estrela em 1977, poucos meses antes de morrer. É um livro pequeno, de menos de cem páginas, mas com um peso que não combina com o tamanho. Clarice conta a história de Macabéa através de um narrador chamado Rodrigo, um escritor que não consegue parar de pensar nessa moça que ele mesmo inventou. 

O livro vira então duas histórias ao mesmo tempo: a de Macabéa e a de alguém que não sabe bem como contar a história dela sem se perder no caminho.

É o tipo de obra que muita gente acha que vai ser difícil e depois descobre que é só muito honesta. Clarice não explica Macabéa, não a justifica, não a defende. Ela simplesmente a coloca na página e deixa você descobrir o que fazer com isso.

Suzana Amaral pegou esse livro e fez algo corajoso: tirou o narrador de dentro e colocou Macabéa de frente pra câmera. Sem filtro, sem intermediário. O que era voz virou rosto.

Um ponto importante sobre o filme é que a atriz Marcélia Cartaxo ganhou o prêmio Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim com a protagonista, Macabéa.

Quem é Macabéa

Macabéa, vivida por Marcélia Cartaxo numa atuação impossível de esquecer, é uma datilógrafa que veio do interior e mora no Rio de Janeiro.

Ela é desastrada, ingênua, analfabeta funcional numa cidade que não tem paciência pra ela. Não é bonita do jeito que o mundo costuma notar. Não é engraçada intencionalmente. E, ainda assim, você não consegue tirar os olhos dela.

O elenco tem ainda Fernanda Montenegro numa participação que ocupa pouco tempo de tela, mas que a gente não esquece: ela interpreta a cartomante Carlota, a personagem que muda o rumo da história de Macabéa na reta final. 

Montenegro chega ao filme com aquela presença que não precisa de muito, uma cena, algumas frases, e você sente o peso do que está por vir. É o tipo de encontro entre duas atrizes que fica na memória mesmo depois de o filme acabar.

Por que chorar do nada é fácil

Macabéa não é uma personagem trágica no sentido clássico. Ela não perde grande amor, não faz escolha fatal, não carrega segredo pesado. Ela simplesmente existe, do jeito que pode, com o que tem. E é exatamente isso que machuca.

A gente não chora por ela da maneira que chora por personagens que sofrem visivelmente. Choramos por algo mais profundo, que tem a ver com reconhecimento: de pessoas que ignoramos, de solidões que fingimos não ver, de uma leveza triste que o filme captura melhor do que qualquer palavra conseguiria.

Tem também algo de político nesse choro, mesmo que o filme nunca use essa palavra. Macabéa é nordestina, pobre, invisível numa cidade que não foi feita pra ela. A gente chora por ela, mas também chora por todo mundo que já foi Macabéa em algum momento, e que o mundo passou por cima sem nem perceber.

Suzana Amaral dirige com precisão e sem sentimentalismo. Não tem trilha empurrando emoção, não tem câmera dando dicas de como se sentir. O filme confia que você vai encontrar o caminho até Macabéa sozinho, e quando você chega lá, já é tarde demais pra não se importar.

Vai dar o play?

Não é leve, mas também não é pesado do jeito que cansa. É do jeito que fica. A hora da estrela é o tipo de filme que a gente recomenda sem hesitar para qualquer pessoa, em qualquer fase da vida.

Porque ele fala de algo que não envelhece: a dificuldade de existir num mundo que não reservou lugar pra você. Se você está com vontade de sentir algo real, sem saber bem o quê, comece por esse.

A hora da estrela | 1985 | Direção: Suzana Amaral | 1h 36 min | Classificação: 14+

Onde assistir: Netflix, Globoplay, Claro TV+.

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