Heleno: o craque que valeu cada minuto em campo, mas destruiu a si mesmo

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Dani Vieira

A Copa acende a memória do futebol brasileiro. Mas antes dos campeões, te indico Heleno, o filme sobre o craque que nunca chegou lá.

Rodrigo Santoro de frente para a câmera, usando a camisa listrada preta e branca do Botafogo, com a mão no rosto e as arquibancadas do estádio desfocadas ao fundo. A imagem é em preto e branco.

A Copa do Mundo está rolando, e você sabe que ela faz isso: acende a memória afetiva do futebol brasileiro. Os grandes jogadores, as histórias, os mitos. Mas antes de você ficar só nos campeões, te indico um filme sobre o lado que o esporte prefere esquecer.

O homem que era maior que o mito sobre si

Heleno de Freitas foi, nos anos 1940, o maior ídolo do Botafogo antes de Garrincha. Advogado formado, filho de família rica, bonito, inteligente e com uma média absurda de quase 1 gol por jogo pelo clube alvinegro. 

Virou galã da alta sociedade carioca, ganhou o apelido de "Gilda" (em referência à personagem de Rita Hayworth), morava no Copacabana Palace e era frequentador assíduo de bares e bailes. O Brasil esperava que ele fosse a grande estrela da Copa de 1950. Não foi. Nunca chegou lá.

O que destruiu Heleno não foi um adversário em campo. Foi ele mesmo. A vida fora do futebol, marcada por álcool, noitadas e uma personalidade explosiva que brigou com técnicos, diretores e até presidentes de clube, foi minando tudo. 

A sífilis foi o ponto final. Ele morreu em 1959, aos 39 anos, num sanatório em Barbacena, esquecido, sem falar com ninguém há meses.

Rodou no preto e branco e capturou a essência da época

O diretor José Henrique Fonseca filmou tudo em preto e branco em pleno ano de 2012, e a decisão funcionou porque transformou Heleno num mito ainda em vida. A fotografia do Walter Carvalho criou um Rio de Janeiro dos anos 40 que parece ter saído de um sonho, bem elegante e pesado ao mesmo tempo.

A estrutura alterna os dias finais de Heleno no sanatório com os flashbacks dos tempos de glória. Esse vai e vem pode desacelerar o ritmo em alguns momentos, e aí sentimos. Mas, quando funciona, cria uma tensão bonita entre o que ele foi e o que ele virou.

Rodrigo Santoro carrega o filme nas costas, e carrega bem

A atuação de Rodrigo Santoro é o coração do filme. Heleno é um personagem que provoca simpatia e irritação quase ao mesmo tempo, e Santoro consegue equilibrar isso sem transformar o jogador nem em herói nem em vilão. O que você vai ver é um homem real, cheio de contradições, preso numa personalidade que ele mesmo não controla.

Alinne Moraes também aparece bem, mas o filme não dá muito espaço pra quase ninguém além do protagonista. É uma escolha deliberada, e que pode incomodar quem espera um drama de elenco.

O que o filme não entrega

Tem uma crítica justa que circula sobre Heleno: o filme não vai fundo no futebol, com análises complexas. Pra um jogador com esse talento, há pouquíssimas cenas em campo. Quem espera ver o craque jogando vai sentir falta.

Mas acredito que isso é uma escolha, não um erro. José Henrique Fonseca deixou claro desde o lançamento: "Mostramos o homem que está por trás do mito." Se você topa essa premissa, o filme funciona.

Uma ironia que a Copa ajuda a sentir

A história de Heleno tem um peso específico em época de Copa. Ele era a grande esperança do Brasil para o Mundial de 1950, a Copa que terminou com o Maracanazo. Não chegou. E morreu em 1959 sem saber que o Brasil tinha sido campeão mundial pela primeira vez, na Suécia, no ano anterior.

Toda Copa nos faz lembrar dos que chegaram lá. Heleno é o retrato dos que não chegaram, e o porquê.

Vale seu tempo?

Muito. Heleno não é um filme só sobre futebol. É sobre o que acontece quando um talento não tem estrutura emocional pra suportar a própria grandeza. Rodrigo Santoro entrega uma das melhores atuações do cinema brasileiro recente, e o filme fica na cabeça bem depois dos créditos. Vai nesse se você curte a temática.

Heleno | 2012 | Direção: José Henrique Fonseca | 1h56m | Classificação: 14+ 

Onde assistir: Prime Video

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