Odisseia: pra quem quer épico, não fidelidade ao mito

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Camille Pezzino

Odisseia, de Christopher Nolan, adapta Homero pro grande público. Veja se vale seu tempo, o contexto histórico e as escolhas de elenco por trás do filme.

Odisseu (Matt Damon) desembarca na praia com seus soldados em cena de Odisseia, de Christopher Nolan

Odisseia é um filme que foi feito pra todo mundo, mesmo quem nunca leu uma linha de Homero na vida. A ideia aqui não é fidelidade ao mito, e é isso que Christopher Nolan quer passar: ele não acredita na magia, só na aparente magia da época.

Existem linhas inteiras copiadas do poema épico, mas o roteiro está mais interessado em fazer o grande público entender e sentir a história do que em adaptar cada episódio famoso da Odisseia original.

Do que se trata Odisseia

Depois da Guerra de Troia, Odisseu (Matt Damon) tenta voltar pra casa, mas a viagem vira um pesadelo de anos. Pelo caminho, ele enfrenta o ciclope Polifemo, as sereias, a feiticeira Circe (Samantha Morton) e a ninfa Calypso (Charlize Theron), enquanto tenta lidar com a culpa do que fez durante a guerra. Em Ítaca, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e o filho Telêmaco (Tom Holland) seguem esperando, sem saber se ele vai voltar algum dia.

Os americanos contaram uma história deles

No fundo, Odisseia parece ser menos sobre um soldado grego e mais sobre um soldado americano. Isso fica claro na culpa que Nolan dá a Odisseu, a vergonha de voltar pra casa depois de ter destruído a vida de tanta gente do lado de fora, o peso de carregar uma guerra que talvez nem devesse ter acontecido.

Isso, claro, soa muito mais próximo da forma como os Estados Unidos enxergam suas próprias guerras recentes do que uma leitura da Grécia Antiga, apesar de Homero, na Odisseia, questionar as lógicas daquele tempo, como a honra do herói através da figura de Aquiles. Homero critica a guerra desde a Ilíada, mas a forma como Odisseia de Nolan faz parece muito mais americana e moderna.

Isso era algo que eu esperava e não é uma novidade. Todo filme que Hollywood faz sobre a cultura alheia nada mais é do que uma história sobre si mesma, por isso poucas vezes tem fidelidade histórica. Só que funciona até bem aqui, ainda que seja bem americano do jeito que só Hollywood consegue ser.

Historicamente, é uma bagunça (às vezes de propósito)

Se você é do tipo que quer tudo igualzinho e com precisão histórica, Odisseia vai te incomodar. A estrutura de Troia, as armaduras troianas e até a construção do cavalo são completamente diferentes da Grécia Micênica real, o período em que a guerra de fato teria acontecido, bem antes da Grécia Clássica que a gente costuma imaginar quando pensa em mitologia grega.

Mas uma coisa que foge dessa bagunça histórica é a escalação de Lupita Nyong'o como Helena de Troia (e de Clitemnestra). Teve gente reclamando dessa escolha, só que a reclamação ignora um detalhe importante: existe, na tradição antiga, documentada desde o século VI a.C. (6 a.C.), uma ligação entre Helena e o Egito.

O poeta Estesícoro contava que Helena nunca pisou em Troia e passou a guerra inteira sob proteção do rei egípcio Proteu, ideia que Eurípides repetiu na peça Helena. Um artigo do Hektoen International, revista acadêmica de humanidades médicas, chega a discutir Helena como uma curandeira egípcia. Ou seja, faz sentido historicamente, muito mais sentido, aliás, do que as armaduras troianas ou a arquitetura de Troia no filme.

Aquela armadura do Agamêmnon que virou piada

O principal motivo da minha expectativa estar lá embaixo quando fui assistir ao filme foi a armadura preta do Agamêmnon (Benny Safdie). Diferente de quem nunca estudou a Grécia do período Micênico, quem já fez isso sabe que foi a coisa mais nada a ver que Nolan colocou na história inteira.

Essa armadura mais parece coisa de super-herói do que de um aqueu (ou seja, um dos povos gregos que estava lutando na guerra), o que deveria ter rendido muito mais piadas do que aconteceu quando o trailer saiu.

Só que, depois de assistir ao filme, notei que ela cumpre uma função clara na história: comunica o poder e o status do personagem antes mesmo dele abrir a boca. Faz sentido dentro da lógica visual e de elenco do filme, mesmo destoando de qualquer registro histórico real da época.

Os deuses gregos quase não aparecem, mas participam

Odisseia flerta bem mais com o sobrenatural do que eu esperava, e confesso que esse foi o motivo de eu me surpreender e gostar do que o Nolan propôs. A cena da Circe é o ponto alto disso: no canto de Homero, ela transforma os homens de Odisseu em porcos. 

No filme, tudo foi filmado com um clima pesado, quase de terror, longe da magia bonitinha que as pessoas associam à mitologia. Tem muito, muito mais a ver com o que de fato são os deuses gregos pro pessoal daquele tempo.

Quem rouba a cena (e quem não rouba)

Diante de tanta gente boa, parece que o Tom Holland ficou meio perdido na atuação. Diferente de Anne Hathaway que, em compensação, entregou uma atuação de Penélope ótima, mesmo que a personagem em si tenha sido empurrada de um lado pro outro. Se Nolan quis mostrar o peso da sociedade patriarcal, eu não sei, mas isso fez uma Penélope que parecia mais desesperada do que o pulso firme que é dentro do poema.

Matt Damon segura muito bem o papel principal, outro ponto que me surpreendeu. Apesar das poucas cenas, Zendaya e Lupita Nyong'o roubaram pra si cenas muito específicas. Lupita consegue isso por duas vezes, aliás, menos como Helena, mas muito mais como Clitemnestra.

Pra quem achou que o Aquiles ia aparecer, isso não acontece. Esse fato só reforça que o Nolan não estava preocupado em cobrir o mito inteiro, e sim em contar a história que ele queria contar. O que foi louvável, considerando que ele trouxe Ilíada e Odisseia pra um filme só, praticamente.

A tela, o escuro e a trilha sonora

Muita gente reclamou da proporção de tela usada no filme, mas isso muda dependendo da sala em que você assiste: em salas certas, como foi o caso da minha sessão, dá pra ver a tela cheia sem problema. O tom escuro que domina boa parte das cenas combina bem com a história e é a cara do Nolan, que também apostou nesse clima em outros filmes.

Outro ponto marcante foi a trilha sonora, muito, muito bonita, que realmente me remeteu ao tempo clássico (mais até do que alguns cenários, como a própria construção de Troia). Só que, durante a sessão, o som ficava tão alto que me incomodava, eu só não sei se isso foi problema da minha sala ou do filme em si.

Vale seu tempo?

Vale, e vale bem mais do que eu esperava quando vi a armadura do Agamêmnon pela primeira vez. Mas não vá com expectativas muito altas, pode ser que esse filme acabe ficando ruim pra você, se for acreditando que é uma obra-prima do cinema moderno.

Se você gostou de Troia (2004), pela mesma mitologia contada de um jeito mais realista e menos mágico, ou de Gladiador (2000), pela mistura de épico com drama pessoal, vai curtir esse também. Quem é fã do próprio Nolan vai reconhecer o visual de Dunkirk (2017) em várias cenas.

Odisseia (The Odyssey) | 2026 | Direção: Christopher Nolan | 2h52min | Classificação: 16 anos | Onde assistir: Em cartaz nos cinemas

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