Dia D: um filme sobrecarregado de expectativas
Disclosure Day, conhecido como Dia D, é o retorno de Steven Spielberg à ficção científica de alienígenas, mas no fundo fala de empatia. Será que vale o seu tempo?

Dia D (Disclosure Day) chega cercado de expectativa: Steven Spielberg de volta à ficção científica de alienígenas depois de anos, com John Williams na trilha e um elenco de primeira. Mas o que mais me surpreendeu não foi a nave, nem o mistério. Foi perceber que, no fundo, Dia D é um filme muito mais parecido com A Lista de Schindler do que com Guerra dos Mundos.
Dia D é um filme sobre o que a gente escolhe sentir diante daquilo que não entende. Por isso, ele fala sobre comunicação: linguagem e empatia.
O contexto real por trás de Dia D
Dia D não é baseado em fatos reais, mas chegou aos cinemas com a realidade soprando no cangote. Em 8 de maio de 2026, semanas antes da estreia brasileira, o Pentágono liberou 162 arquivos desclassificados sobre OVNIs e fenômenos aéreos não identificados. Spielberg contou, no painel do South by Southwest de 2026, que voltou ao tema depois de acompanhar as audiências do Congresso americano sobre o assunto. O que o fisgou não foi a possibilidade de vida fora da Terra, e sim a reação humana diante da incerteza: o impulso de negar, classificar e reduzir o que não cabe nas nossas lógicas. É esse peso de coisa real que dá ao filme um lugar diferente em 2026, apesar de ter decepcionado algumas pessoas que foram assistir justamente por isso.
O que acontece em Dia D
Daniel Kellner (Josh O’Connor) é um especialista em segurança cibernética que decide expor décadas de contato extraterrestre encobertas por governos e corporações. Vira alvo na hora. Ao mesmo tempo, Margaret Fairchild (Emily Blunt), apresentadora do tempo numa TV local, começa a viver fenômenos que não consegue explicar. Passa a falar línguas que nunca aprendeu, bem ao vivo. Os dois acabam no mesmo caminho, perseguidos pela Wardex, a corporação comandada por Noah Scanlon (Colin Firth), enquanto o mundo caminha pra beira de uma nova guerra mundial. O filme se importa menos com a invasão e mais com o que essa revelação faz com a gente.
Por que Dia D funciona pra alguns e outros não
Tudo é sobre expectativa e essa foi a ruína do filme pra muita gente. Spielberg é conhecido por Guerra dos Mundos, isso, por si só, pra quem ama alienígenas e teorias ufológicas, já é o suprassumo, porque o filme não é sobre alienígenas, é sobre como a gente se comporta diante do desconhecido.
Acho que é por esse motivo que o Spielberg acaba sendo um diretor muito mais maduro em Dia D, e isso (na minha visão) é um trunfo. A filmagem de Janusz Kamiński em 35 mm com uma luz quase espiritual traz essa duplicidade entre religião e crença; John Williams trabalha por baixo da imagem, conduzindo as pessoas pela mão ao choro. Ao menos, eu quase chorei em duas cenas. Eu realmente consegui sentir a dor e o medo envolvidos na história.
Enquanto os ecos de E.T. O Extraterrestre até se manifestam, o filme lembra muito Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind), mas reconfigurados pra um tempo em que as pessoas se tornaram cada vez mais fechadas em si mesmas, paranoicas e desconfiadas.
Aliás, há algo de bonito em como o filme usa a comunicação, a empatia e o amor como temas centrais. Apesar de que me parece forçado colocar Dia D ao lado de A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve, os dois partem da mesma pergunta: como conversar com aquilo que não se entende? Como entender aquilo que não se imaginava existir? Como entender algo pra além do que conhecemos se nem nós nos entendemos?
O que foi Emily Blunt
Emily Blunt é o coração do filme, e não, não é força de expressão. Como Margaret, ela alterna fragilidade, paranoia e determinação sem nunca escorregar pro melodrama. Ela segura sozinha algumas das cenas mais difíceis de Dia D, aliás, vou ousar dizer que é uma das atuações mais precisas da carreira recente dela. Josh O'Connor faz um contraponto certeiro. O Daniel é cerebral, movido por dados e pela teimosia de provar a verdade, também funciona porque resiste a se emocionar enquanto tudo ao redor desmorona.
Colin Firth entrega um antagonista de elegância fria, combinando muito bem com ele. Noah Scanlon não é monstruoso à primeira vista (e é aí que mora o incômodo). Ele é a autoridade educada que decide o que o mundo pode ou não saber. No elenco de apoio, Colman Domingo chama atenção como o especialista mais ambíguo da trama e Eve Hewson aparece pouco, mas em cenas que ficam. Dia D não é um filme de grandes atuações solo. É um filme de elenco afinado, o que combina com o que Spielberg quer dizer durante seu filme: ninguém se salva sozinho.
Vale seu tempo?
Vale, mas com um aviso: tira o filme do pedestal antes de comprar o ingresso. Quem entra esperando uma ficção científica cínica e cheia de viradas vai achar o roteiro de David Koepp simples demais, às vezes ingênuo e não vai entender o porquê teve gente gostando.
Eu entrei disposta a me entregar porque vi pouco conteúdo de divulgação, com isso, o filme me ganhou. Não sei se é o melhor longa da carreira de Spielberg, acho que ele nem finge ser. Também não é um blockbuster, é um filme mais maduro, bonito de ver, que aposta na esperança quando quase ninguém aposta. Emily Blunt sustenta o coração da história e Kamiński entrega um espetáculo de luz.
Por isso, se você for com a expectativa de teorias conspiracionistas, muitos efeitos especiais e aparições de alienígenas a torto e direito invadindo o mundo: não vá assistir, o filme não vai funcionar bem. É melhor reassistir Guerra dos Mundos.
Mas se você for mirando a empatia exigida em A Lista de Schindler, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T., ele vai funcionar muito melhor, porque esse é um filme de Spielberg sobre nós, seres humanos e pra nossa extrema falta de comunicação.
Meu conselho: vai sem o ranço da expectativa. Se você topar um filme que prefere te emocionar a te assustar, Dia D vale cada minuto.
Dia D | 2026 | Direção: Steven Spielberg | 2h25 | Classificação: 12 | Onde assistir: Em cartaz nos cinemas





