'Brasil 70: A Saga do Tri' olha para além de Pelé na conquista do tricampeonato

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Rafael Gonçalves

A minissérie da Netflix acerta o gol no campo e na emoção, mas pede que o espectador faça o dever de casa fora dele.

Poster divulgação Brasil 70: A Saga do tri

Num momento certeiro, às vésperas da Copa de 2026, a Netflix resolveu mexer na ferida mais doce do torcedor brasileiro: o tri de 1970. E em grande parte, entrega. É bonita, é emocionante e é tecnicamente impressionante. Mas, como todo filme que mexe com futebol e história, a gente precisa ter um cuidado maior do que o normal.

Ficção que não finge ser documentário

Logo de cara, um ponto a favor: a série não se vende como verdade absoluta. É ficção que mistura fatos históricos pra mostrar os bastidores do time que conquistou o tricampeonato. Essa honestidade é o que permite à série tomar liberdades sem trair quem assiste.

E ela acerta no essencial. O retrato de um Pelé cheio de dúvidas, traumatizado depois de ser massacrado na Copa de 1966, é fato: ele repetiu em várias entrevistas que não jogaria mais uma Copa. A série transforma essa fragilidade em coluna dramática, e senti que funcionou muito bem.

Elenco: Mais intérpretes do que imitadores

Rodrigo Santoro vive João Saldanha, Bruno Mazzeo faz o Zagallo que o substitui no comando da Seleção, e Lucas Agrícola encara a tarefa quase impossível de dar humanidade a Pelé. Ao redor deles, nomes como Ravel Andrade (Tostão) e Marcelo Adnet preenchem o vestiário com a química necessária pra fazer a gente acreditar naquela irmandade.

Não são imitadores, eles são intérpretes. Saldanha e Zagallo, em especial, escapam da caricatura e ganham contradições de gente de verdade.

Quando a câmera entra em campo

Senti que o maior trunfo técnico é a recriação das partidas. Em vez de recorrer ao arquivo, os diretores colocaram a câmera dentro do gramado, do ponto de vista dos jogadores. O próprio Paulo Morelli, um dos diretores, falou que as câmeras da época eram muito, muito ruins, daí ele não teve saída: criou um cenário que a gente se via no jogador.

O resultado é imersivo e ajuda a entender a comparação que os críticos estão fazendo com Senna, da própria Netflix: uma obra pop com ritmo frenético. Só que tem um ponto que deixo aqui pra quem é fã e conhece cada lance: algumas jogadas históricas, como foi o quarto golaço da final, ficaram mais parecendo uma versão estilosa do que uma recriação do momento. É um pecado bem pequeno perto do que a série entrega.

A ditadura como pano de fundo em 'Brasil 70'

A campanha de 70 aconteceu no auge do governo Médici, e a série não esconde isso. O Governo Militar investiu pesado na Copa como fonte de propaganda e usou a conquista como narrativa de união nacional. Isso é história documentada. A série faz bem em lembrar que aquela alegria genuína foi, ao mesmo tempo, um instrumento de um regime autoritário.

Vale lembrar disso quando for assistir, sem que seja motivo pra torcer o nariz. É ficção, não documentário, e nunca quis ser outra coisa.

Vale seu tempo?

Vale, e muito. Como entretenimento e como reencontro afetivo com um dos maiores times da história do futebol, Brasil 70: A Saga do Tri é um golaço. Você vai se arrepiar no quarto gol como gerações de brasileiros se arrepiam há décadas.

Talvez a série não conte a história exatamente da forma que muita gente imaginava, mas entrega uma produção caprichada, atuações sólidas e momentos capazes de emocionar até quem já conhece cada capítulo daquela conquista.

Se ficou curioso para conferir essa nova perspectiva sobre o tricampeonato de 1970, a minissérie já está disponível na Netflix.

'Brasil 70: A Saga do Tri' | 2025 | Direção: Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles | Classificação: 14+

Onde assistir: Netflix

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