Odisseia: qual é a cor de Helena de Troia?
Lupita Nyong'o é Helena de Troia na Odisseia de Christopher Nolan, as pessoas não aceitaram bem. A pergunta que fica é: qual a cor de Helena de Troia?

Desde que Odisseia (The Odyssey, 2026) anunciou o elenco, uma pergunta não sai das redes sociais. A questão pegou fogo por um motivo bem específico: Lupita Nyong'o interpreta Helena de Troia e também Clitemnestra no filme. Isso foi o suficiente pra reabrir uma discussão que, no fundo, é bem mais velha do que qualquer trailer.
O que acontece no filme
A Odisseia acompanha o retorno de Odisseu (Matt Damon) pra casa, dez anos depois do fim da Guerra de Troia. Enquanto o herói enfrenta criaturas, deuses e naufrágios pra voltar a Ítaca, Penélope (Anne Hathaway) segura as pontas em casa e Telêmaco (Tom Holland) sai atrás do pai. Zendaya interpreta a deusa Atena, protetora de Odisseu ao longo da jornada. Já Helena de Troia (Lupita Nyong'o) e Menelau (Jon Bernthal), o casal espartano cujo rapto deu origem a guerra toda, aparecem nas lembranças que movem boa parte da trama.
A polêmica da internet
A escalação de Lupita não passou batida. Desde o anúncio, a atriz recebeu uma onda de comentários racistas, incluindo do comentarista Matt Walsh, que questionou publicamente a beleza dela pro papel e acusou Nolan de covardia por não escalar uma atriz branca. Elon Musk também entrou na discussão, dizendo que Nolan teria “perdido sua integridade” ao escolher a atriz.
Lupita não deixou barato. Em entrevista à revista Elle, ela resumiu bem o ponto central: “Esta é uma história mitológica. Nosso elenco é representativo do mundo”. Também disse que não ia gastar energia se defendendo, porque a crítica vai existir de qualquer jeito. As pessoas, na verdade, esqueceram que Lupita também é considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo, como lembrou Whoopi Goldberg no programa The View.
Helena no cinema: como ela sempre foi representada
Pra entender o problema, é importante voltar no tempo. Em 1956, Rossana Podestà interpretou Helena no clássico Helena de Troia, dirigido por Robert Wise. Quase cinco décadas depois, Diane Kruger assumiu o papel em Troia (2004), ao lado de Brad Pitt e Orlando Bloom.
Ou seja: a imagem de Helena como uma mulher branca e europeia não vem de um texto sagrado e imutável. No cinema, vem de uma sequência de escolhas de elenco do século 20, cada uma refletindo o padrão de beleza da própria época. Isso também vale pra pinturas e esculturas do período renascentista.
Helena foi mesmo a responsável pela guerra?
Quando pensamos em Helena como responsável pela guerra, o poeta Estesícoro, no século 6 a.C., já teria mudado um pouco o rumo dessa história. Ele teria escrito um poema afirmando que Helena teve um caso adúltero com Páris e, segundo a lenda, ficou cego logo depois.
Achando que ofendeu Helena, ele escreveu uma segunda versão, a Palinódia, dizendo que ela nunca nem sequer embarcou pra Troia. Nessa versão, quem foi pra Troia foi um fantasma, um "eidolon" criado pelos deuses, enquanto a Helena de verdade ficava no Egito.
Outro que registrou uma história parecida foi o historiador Heródoto, contando que sacerdotes de Mênfis disseram pra ele que Páris e Helena pararam no Egito a caminho de Troia e que o rei Proteu manteve Helena lá até que ela pudesse voltar pro marido. Essa versão é a mesma que Eurípides usou de base pra sua peça Helena.
Na peça, Hera substitui Helena por um fantasma e manda a Helena real pro Egito, onde ela fica sob a proteção do rei Teoclímeno. Ou seja: pra Estesícoro, Heródoto e Eurípides, Helena nem chegou perto de Troia. A "culpada pela guerra", no máximo, era uma imagem, e não a mulher de verdade.
E tem mais um furo nessa história. Alguns historiadores leem o resgate de Helena como um pretexto: por trás da guerra, os gregos tinham interesses econômicos e estratégicos, principalmente o controle do estreito dos Dardanelos, rota comercial disputada com Troia. Ou seja: nem dentro e nem fora do mito, a culpa cabia só nos ombros de Helena.
Faz sentido ela ser negra?
Pra responder se Helena podia ser ou não negra, é importante olhar três pontos: os textos da Antiguidade e o que falam sobre a aparência dela; os mitos, que já vimos que não se sustentam e até de lugar Helena já mudou; e como de fato era a sociedade do período em que ela supostamente teria vivido.
Helena nos textos da Antiguidade
Nenhum estudioso de renome, ou quem de fato estude história antiga, vai dizer que Ilíada e Odisseia descrevem a aparência física dos personagens, principalmente considerando as categorias raciais que temos nos dias de hoje. Quando a cor da pele aparece no texto, ela costuma estar ligada a gênero, status social ou atividade física.
Helena é chamada de “leukolenos”, termo traduzido como “de braços brancos” pelos tradutores do século 20, mas “leukos” (esse início da palavra) tem outras traduções possíveis, como límpido, puro e brilhante. Consigo dizer isso pra vocês porque sou formada em grego antigo.
Os estudiosos do tema entendem que esse termo funcionava como marcador de classe, não de etnia: mulheres da elite ficavam mais tempo protegidas do sol, o que preservava a pele clara como sinal de nobreza. Esse epíteto aparece em outras personagens, como a própria Hera.
O classicista Tim Whitmarsh, de Cambridge, resume o ponto de um jeito direto: os próprios gregos antigos provavelmente nem entenderiam o conceito moderno de serem chamados de brancos, até porque eles não se encaixam no conceito de branco dos dias atuais também.
Pra ser justa, nos textos de Eurípides e de Safo, poetisa do século 6 a.C., tem a descrição de que Helena seria loira ou teria cabelos claros, mas isso não significa que fosse uma verdade. Se levarmos em conta a tradição de que a Guerra de Troia teria acontecido por volta de 1200 a.C., Helena teria vivido muitos anos antes de Safo, Eurípides, Estesícoro, Heródoto e do próprio Homero. Por isso, se você quiser defender que Helena tinha cabelos claros ou loiros, até pode encontrar isso nos textos da Antiguidade, mas não existe uma descrição de tom de pele, muito menos qualquer coisa parecida com raça no sentido que a gente usa hoje.
Helena nos mitos
Nos mitos, Helena nasceu de um ovo, Zeus era um cisne. No canto 4 da Odisseia, ela também aparece ligada ao Egito por outro motivo: usa uma droga que apaga a tristeza, presente de Polidamna, mulher do egípcio Ton.
Essa conexão rendeu até uma releitura acadêmica interessante. Um artigo publicado no periódico Hektoen International propõe pensar Helena como uma "swnwt", o termo egípcio pra médica ou curandeira, ligando o conhecimento dela sobre fármacos a uma possível formação dentro da medicina egípcia. A própria autora do texto é clara: essa é uma leitura especulativa e feminista, não uma reconstrução histórica literal. Mas mostra até onde a lacuna em torno de Helena permite imaginar.
Por isso, não dá pra colocar o peso da culpa da guerra só sobre os braços brilhantes de Helena por conta de Homero. Se Estesícoro, Heródoto e Eurípides já construíram versões diferentes, quem de nós consegue garantir algo?
O mais interessante de tudo é como isso é revelador. Muito antes de qualquer polêmica de elenco, os próprios gregos antigos já reescreviam a geografia e a biografia de Helena conforme a história pedia ou com o que descobriam.
A Grécia do tempo de Helena era multirracial?
Quando falamos de ciência, precisamos ter muito cuidado, até porque as pessoas falam sem saber. Em 2017, um estudo de ancestralidade dos micênicos e minoicos, gente do tempo de Helena, foi publicado na Nature por Iosif Lazaridis e sua equipe. Analisaram o DNA e descobriram que três quartos da ancestralidade deles vinha dos primeiros agricultores neolíticos da Anatólia e do Egeu, com o restante ligado a populações do Cáucaso e do Irã. Os micênicos também tinham uma parte da ancestralidade ligada aos caçadores e coletores do leste europeu e da Sibéria.
Ou seja: hoje, ainda é pouco relevante a ancestralidade subsaariana encontrada na população micênica. Só que isso não significa isolamento ou uma certeza absoluta. O comércio micênico já tinha relação com o Egito desde o início do século 15 a.C., e reis micênicos são citados em registros que os colocam junto de outros grandes governantes da época, incluindo o Egito. Isso quer dizer que o contato era direto e intenso, sim.
Então, faz sentido sim
Se consideramos que Homero não fixou a cor da pele de Helena, só usou os epítetos ligados a status; a própria mitologia grega, através de Estesícoro, Heródoto e Eurípides, reescreveu a origem e a geografia de Helena, colocando a diva pra brilhar no Egito por gerações antes de qualquer roteiro de Hollywood. Já temos uma resposta de que é possível que ela seja negra. Mas, também, a genética micênica, apesar do contato documentado com o Egito, ainda não tem uma amostra significativa de mistura africana na população da região naquela época. O que significa que ninguém pode afirmar com certeza que Helena era branca ou negra.
Quem defende que “Helena sempre foi branca” está confundindo tradição de elenco com texto original: não existe base homérica pra isso. Mas quem quiser argumentar que a genética prova uma Helena negra também está esticando o dado além do que ele realmente mostra. O que existe, de fato, é um vazio na descrição do material original, porque nunca foi importante pra nenhum grego do passado se Helena foi ou não de alguma cor específica.
Aliás, é nesse exato vazio que toda reinterpretação, inclusive a de Nolan, funciona bem. Rossana Podestà, Diane Kruger e agora Lupita Nyong'o não são versões “certas” ou “erradas” de Helena. São, cada uma, a Helena do seu tempo. Então, antes de vir com qualquer discurso sobre certo e errado, tem muita coisa pra ler antes.





