Tapete Vermelho: melhor do que parece e difícil de esquecer

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Dani Vieira

Um caipira, um burro e uma promessa para cumprir. Tapete Vermelho é um filme brasileiro que ninguém espera muita coisa, mas se surpreende quando assiste.

Matheus Nachtergaele interpreta Quinzinho em cena do filme Tapete Vermelho. O ator aparece de chapéu de palha e roupas simples, apoiado em um cabo de enxada, olhando para cima em frente a uma casa de sítio no interior paulista com vegetação ao redor.

Tem filmes que ficam esquecidos não porque são ruins, mas porque ninguém os empurrou na direção certa. Tapete Vermelho, de 2006, é um desses. Sem grande campanha, sem holofote, sem o tipo de buzz que leva um filme ao radar de quem não está procurando, ele simplesmente sumiu entre os lançamentos do ano e ficou por lá, quieto, esperando quem tivesse sorte suficiente pra tropeçar nele.

Eu assisti sem grandes expectativas. O título não ajuda, a sinopse parece simples demais e o nome de Mazzaropi, central na história, não diz muita coisa pra quem tem menos de 40 anos. Mas, nos primeiros 15 minutos, eu já estava completamente dentro daquele universo. E quando o filme terminou, fiquei um tempo parada antes de desligar a TV.

Não é um filme que grita. É do tipo que fica. E esse, pra mim, é o melhor tipo de filme que existe.

Uma história simples e bonita do cinema brasileiro

Quinzinho, vivido por Matheus Nachtergaele, é um caipira do interior de São Paulo que tem uma promessa a cumprir: levar o filho Neco, de 10 anos, pra assistir a um filme de Mazzaropi no cinema. Parece simples, mas não é.

O problema é que Mazzaropi, maior comediante do cinema popular brasileiro, morreu em 1981. E encontrar um cinema no interior paulista que ainda passe um filme dele acaba virando uma odisseia. Quinzinho pega a mulher Zulmira, o filho Neco e o burro Policarpo e parte numa jornada por cidades do interior paulista que é ao mesmo tempo cômica, mágica e estranhamente emocionante.

É um road movie caipira. E funciona muito bem.

Por que Matheus Nachtergaele é genial aqui

Eu preciso falar do Matheus Nachtergaele porque ele carrega o filme de um jeito que poucos atores conseguem. Quinzinho é ingênuo sem ser idiota, teimoso sem ser antipático, e completamente apaixonado por um sonho que o mundo moderno não entende mais. Nachtergaele equilibra tudo isso com uma naturalidade impressionante.

A realidade brasileira do povo do interior 

O que me surpreendeu em Tapete Vermelho foi a camada por baixo da comédia. A jornada de Quinzinho passa por crendices populares, lendas do interior, conflitos de terra e personagens que carregam o Brasil real no corpo. Tem momentos de realismo mágico que aparecem sem aviso e funcionam porque o filme já criou um universo em que isso é possível.

Tem também uma crítica que o filme não precisa gritar: quando Quinzinho chega ao cinema e o gerente não sabe quem é Mazzaropi, a cena diz tudo sobre o que o Brasil faz com a própria memória cultural. Eu ri e fiquei incomodada ao mesmo tempo. Esse é o tipo de cinema que fica na memória.

O que não funciona no filme

Eu não seria honesta se dissesse que o filme é perfeito. O ritmo cai em alguns momentos no meio da jornada, e certas situações são resolvidas rápido demais para o peso que carregam. Mas são tropeços pequenos numa viagem que vale muito a pena acompanhar.

A atriz Gorete Milagres como Zulmira também surpreende. A personagem começa como cômica e vai ganhando cada vez mais corpo e espaço ao longo do filme. Quem esperava apenas a mulher resmungona do caipira vai encontrar algo mais interessante.

Melhor do que parece?

Muito. Tapete Vermelho parece, à primeira vista, uma comédia caipira simples. E, na realidade, é mais do que isso. É um filme sobre promessas, sobre pai e filho, sobre o Brasil que ficou pelo caminho e sobre a teimosia bonita de quem ainda acredita que vale a pena honrar a própria palavra.

Eu recomendo sem hesitar. E aposto que você vai querer saber e vai pesquisar quem é Mazzaropi depois de assistir.

Tapete Vermelho | Duração: 1h 42 minutos | Classificação: 10+ | Direção: Luiz Alberto Pereira | 2006 | Onde assistir: Prime Video e Claro TV+. 

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