Leviticus: um terror LGBTQIA+ simples e potente
Leviticus transforma o medo da repressão religiosa em uma entidade sobrenatural e entrega um terror LGBTQIA+ simples, criativo e esperançoso.

Leviticus (2026) é um filme de terror australiano escrito e dirigido por Adrian Chiarella que vem chamando atenção entre quem acompanha o gênero e o cinema LGBTQIA+. Depois de passar pelo Festival de Sundance, a produção ganhou força nas redes sociais e chegou a ser muito comentada entre os usuários do X, antigo Twitter. O sucesso também aparece no Rotten Tomatoes, onde atualmente soma 92% de aprovação da crítica e 82% do público. Pra um projeto pequeno, é uma recepção e tanto.
Eu já estava de olho em Leviticus pela temática queer, mas confesso que Joe Bird foi outro motivo pra eu querer assistir. O ator também trabalhou em Fale Comigo (Talk to Me, 2023) e eu fiquei curioso pra ver sua performance em outra produção.
Qual é a história de Leviticus?
Em uma pequena cidade do interior da Austrália, Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen) são dois adolescentes que começam a se aproximar e descobrem uma atração mútua. O problema é que eles vivem em uma comunidade cristã conservadora, na qual o relacionamento entre os dois é visto como algo que precisa ser corrigido. Quando a relação é descoberta, os garotos são submetidos a um ritual de conversão conduzido por um misterioso curandeiro religioso (Nicholas Hope).
Depois do ritual, uma entidade sobrenatural passa a perseguir os dois. O detalhe mais cruel é justamente a forma como ela escolhe aparecer: pra cada vítima, ela assume a aparência da pessoa que ela mais deseja. No caso de Naim e Ryan, isso significa que o próprio garoto por quem estão apaixonados pode ser a criatura tentando levá-los pra morte. Enquanto tentam entender o que aconteceu e sobreviver à perseguição, os dois precisam lidar também com o medo de não poderem confiar nem naquilo que mais amam.
O significado do título e a origem do terror
O título Leviticus faz referência ao livro bíblico de Levítico, que contém o conhecido versículo usado historicamente pra condenar relações amorosas entre homens. Essa conexão não tá ali só como provocação. A produção incorporou a referência nas escolhas visuais e narrativas relacionadas à espiritualidade, colocando a religião em choque com ambientes industriais e com a ideia de uma força criada pra controlar os desejos dos protagonistas.
O conceito central do terror também nasceu de uma pesquisa ampla do diretor, Adrian Chiarella, sobre relatos reais de práticas de terapia de conversão em diferentes culturas. O diretor contou que encontrou relatos de exorcismos realizados contra pessoas LGBTQIA+ em diferentes partes do mundo, inclusive fora de contextos ocidentais e cristãos. Uma dessas histórias envolvia um ritual taoista descrito por um amigo do cineasta, e essas imagens ajudaram Chiarella a perceber o potencial do horror pra falar sobre o medo usado como ferramenta de repressão.
O medo de ser diferente como terror sobrenatural

O roteiro de Leviticus é simples, mas é um simples que funciona dentro da proposta do filme. Não temos muitos personagens além dos protagonistas e também não passamos por uma grande variedade de cenários. Ainda assim, o longa consegue ser bastante inventivo, principalmente ao apresentar sua ameaça sobrenatural.
A ideia de uma entidade que assume a forma da pessoa que você mais deseja pra usar esse desejo como armadilha é muito boa. Eu gostei principalmente porque a criatura funciona como uma extensão direta de um medo real. Pessoas LGBTQIA+ que crescem ouvindo que estão erradas por amar quem amam podem acabar vivendo com medo de assumir seus sentimentos e viver suas vidas de forma plena, principalmente quando essa repressão vêm de ambientes religiosos e familiares, que deveriam fazer com que se sentissem bem e seguros. Leviticus pega esse medo de ser diferente e de contrariar uma orientação religiosa e o transforma em uma entidade sobrenatural. Esse é o grande acerto do filme.
A história também subverte as expectativas que normalmente temos em filmes com temática gay, ainda mais do gênero de terror. Existe aquela sensação de que, a qualquer momento, alguma coisa muito ruim vai acontecer com os personagens. Só que Leviticus entrega um final feliz. Isso deixa o filme muito mais esperançoso do que eu imaginava. Em alguns momentos, ele é até fofo, nas cenas de troca de afeto entre Naim e Ryan. A narrativa usa o horror pra falar sobre homofobia, mas também faz questão de mostrar o amor LGBTQIA+ como algo positivo.
Joe Bird dá um show como Naim. As reações dele nas cenas em que a entidade surge e começa a persegui-lo vendem muito bem o desespero do personagem. Stacy Clausen também merece destaque, principalmente quando interpreta a entidade assumindo a forma de Ryan. A expressão corporal dele muda de um jeito assustador e ajuda a transformar alguém que deveria representar segurança em uma ameaça.
O filme transforma o amor em uma coisa que deveria causar medo pra mostrar como a sociedade pode ensinar pessoas LGBTQIA+ a terem medo de si mesmas. Só que, em vez de terminar reforçando essa ideia, Leviticus escolhe o caminho contrário. Naim e Ryan encontram força justamente no afeto que tentaram tirar deles.
Leviticus vale seu tempo?
Leviticus vale a pena ser assistido, principalmente se você faz parte da comunidade LGBTQIA+. Curti ver um terror que não usa seus personagens queer apenas como vítimas e que consegue construir uma história sobre medo, repressão e desejo sem transformar a experiência LGBTQIA+ em algo trágico do começo ao fim.
Se você é fã de filmes de terror, no geral, também vale seu tempo. O roteiro apresenta uma ideia criativa e um universo que pode ser explorado de formas interessantes daqui pra frente. Eu inclusive ficaria bem curioso pra ver o que Adrian Chiarella poderia fazer com esse conceito em uma continuação ou em outra história ambientada nesse mesmo universo.
Se você gostou de Sorria (Smile, 2022), Sorria 2 (Smile 2, 2024) e Corrente do Mal (It Follows, 2015), acho bem provável que curta Leviticus. Os quatro filmes trabalham com uma tensão crescente e uma ameaça sobrenatural que só pode ser percebida por algumas pessoas. Essa característica deixa os protagonistas ainda mais vulneráveis, porque ninguém ao redor consegue enxergar exatamente o que eles estão enfrentando.
Dê o play e depois conte o que achou do filme!
Leviticus | 2026 | Direção: Adrian Chiarella | 1h 28min | Classificação: 18+ | Onde assistir: Ainda não disponível no Brasil




