Os SUPERtontos: caos, poder e Coreia em 1999

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Camille Pezzino

Os SUPERtontos mistura comédia, romance e ficção científica num k-drama de superpoderes ambientado em 1999. Veja se vale seu tempo assistir na Netflix.

Eun Chae-ni (Park Eun-bin) observa enquanto Son Kyung-hoon (Choi Dae-hoon) e Kang Ro-bin (Im Seong-jae) brigam ao fundo, com Lee Un-jeong (Cha Eun-woo) por perto, em cena de Os SUPERtontos.

Os SUPERtontos (2026) consegue misturar absolutamente tudo: comédia, romance, drama e ficção científica, de um jeito que nunca vi outro dorama fazer tão bem. É um k-drama de super-heróis, mas sem a fórmula batida que esse gênero costuma seguir.

A série chegou na Netflix este ano e reúne o diretor Yoo In-sik e a atriz Park Eun-bin, a mesma dupla por trás do fenômeno Uma Advogada Extraordinária (2022). Ambientada em Haeseong, uma cidade fictícia da Coreia do Sul, em 1999, a trama usa o pânico coletivo do bug do milênio como pano de fundo pra contar a história de um grupo de moradores comuns que ganha superpoderes por acidente.

Do que se trata Os SUPERtontos

Um acidente muda a vida de quatro moradores comuns de Haeseong. Eun Chae-ni (Park Eun-bin), acostumada a levar rasteira atrás de rasteira da vida, passa a se teletransportar toda vez que o coração dispara. Son Kyung-hoon (Choi Dae-hoon) descobre que gruda em qualquer superfície sempre que conta uma mentira. Kang Ro-bin (Im Seong-jae) ganha uma força sobre-humana ativada, sem falha, por um bom xingamento. Os três precisam aprender a controlar esses poderes enquanto lidam com o caos comum do dia a dia numa cidade pequena.

No meio disso está Lee Un-jeong (Cha Eun-woo), um funcionário público metódico e desconfiado que esconde uma ligação com o que está acontecendo. Ele sabe o que é o Projeto Wunderkinder, quem são as pessoas por trás e quer, a todo custo, evitar se envolver.

Um pouco de realidade na ficção

O Projeto Wunderkinder, o experimento clandestino com crianças que move boa parte da trama, ecoa os crimes reais da Unidade 731 do Japão Imperial. Durante esse projeto, japoneses torturaram majoritariamente coreanos, chineses e russos capturados em solo chinês, pois os consideravam prisioneiros de guerra.

A ideia era, durante a Segunda Guerra Mundial, fazer experimentos biológicos em quem pudessem, incluindo crianças e gestantes. A showrunner, Kang Eun-kyung, já trouxe essa referência de forma mais direta em A Criatura de Gyeongseong (2023). Em SUPERtontos, ela repetiu a referência, mas de forma bem mais sutil.

Park Eun-bin carrega a série nas costas

Eun Chae-ni (Park Eun-bin) falando no celular em Os SUPERtontos (2026).

De todos os doramas com a atriz que eu vi, essa foi a melhor atuação da Park Eun-bin. Apesar de amar a atuação dela como advogada extraordinária, aqui ela conseguiu transmitir os sentimentos da Chae-ni de forma muito real. Ela teve de atuar uma personagem com sentimentos complexos, tanto por causa da saúde quanto pela relação com a avó, um isolamento físico e psicológico. Ao mesmo tempo em que segurava tudo pra si com o objetivo de ninguém sofrer, fingia odiar o mundo todo. De um jeito que eu não esperava, a atriz conseguiu expressar todos esses paradoxos sentimentais.

Não só isso, durante os episódios, a personagem que a princípio parecia uma menina irritante foi se tornando cada vez mais bonita. Ela não muda seu jeito de agir durante a história, mas a atuação e a personalidade da protagonista vão te conquistando aos poucos.

Diferente da Park Eun-bin, não acho que Cha Eun-woo seja tão bom ator. Mas ele entregou uma atuação mediana boa o suficiente pra não afetar a dinâmica entre os dois personagens. Por isso, a não ser em momentos de alívio cômico, quando temos mais espaço pros outros personagens, Park Eun-bin continua carregando a série nas costas.

Entre uma comédia leve e um mistério pesado, o restante do elenco faz sua parte sem destoar do tom geral de ficção científica. Um ponto que contou muito a favor da história foi o fato de ter só oito episódios, isso porque não dá tempo pra história ficar cansativa ou parecer que têm mais episódios só pra enrolar. Teve plot twists, alguns bem previsíveis, ação, bastante comédia, suspense, de tudo um pouco. E a forma como a narrativa é conduzida não precisa de mais episódios. Foi a medida perfeita.

Figurino e cenário muito bem construídos

Toda a estrutura da série condiz com o momento de virada do século, desde as roupas até a estrutura das casas e os aparelhos domésticos. O figurino tem o tom neutro da época, a não ser pelas roupas rebeldes e maquiagem da Chae-ni, que vai mudando pouco a pouco durante a história. A presença de dispositivos eletrônicos do século passado, bem próprios de adolescentes, não é esquecida.

A construção visual de Haeseong também ajuda bastante, como os carros, a igreja e as estruturas das casas, até porque parece mesmo uma cidade pequena real daquela época. O que reforça o clima de nostalgia e colapso que vem do bug do milênio. Tudo na narrativa visual se aproveita desse receio humano do desconhecido e das promessas de fim do mundo.

Superpoderes, apocalipse e medo do desconhecido

Gostei muito da relação que a série traça entre superpoderes e fim do mundo. Isso fala muito sobre a natureza humana e como o ser humano tem medo daquilo que desconhece, como do medo da própria mudança. A narrativa brinca bem com esse conceito o tempo todo, tanto na parte dos poderes quanto na parte que fala sobre o bug do milênio, também conhecido como apocalipse.

Dá pra puxar até uma leitura psicológica mais profunda em diversos aspectos. Tem o medo da morte que acompanha a Chae-ni desde criança, por causa da doença cardíaca. O medo do desconhecido por parte de toda a cidade, refletido na seita que cresce à sombra do pânico do milênio.

Tem também o ódio a si mesmo do Un-jeong, fruto direto do que passou dentro do Projeto Wunderkinder. Aliás, esse é um dos contrapontos mais legais da história: enquanto a Chae-ni tenta viver e aceitar o que tem, Un-jeong quer fazer o oposto. Quando os poderes dela aparecem, o que ela mais quer é aceitar os poderes como uma bênção e tenta de todos os jeitos convencê-lo de quão bom é estar passando por isso. Esse é um dos pontos-chave da narrativa e é muito bem construído.

Sem contar nas críticas sociais sobre diferença de classe social, poder e corrupção. Essa série tem, definitivamente, de tudo um pouco. Uma salada mista muito bem feita pra maratonar.

Vale seu tempo?

Vale, vale até mais do que eu esperava quando comecei a ver. A história tem até potencial pra uma continuação, apesar de não precisar porque fecha muito bem. Arrisco dizer que é um dos melhores doramas desse ano.

Por isso, se você gosta de histórias como Stranger Things (2016), que também misturam ficção científica com o uso de crianças em experimentos, essa é uma excelente pedida. Você também pode ver A Criatura de Gyeongseong, que traz uma referência mais direta dos experimentos da Segunda Guerra dentro da trama.

Os SUPERtontos (The WONDERfools) | 2026 | Direção: Yoo In-sik | 8 episódios (de 60 a 92 minutos por episódio) | Onde assistir: Netflix

Perguntas Frequentes

Os SUPERtontos vai ter 2ª temporada?
Até agora, não. A Netflix não anunciou renovação e trata a série como minissérie. Só que o final deixa a porta aberta, principalmente por causa da cena pós-créditos.
Quem está no elenco de Os SUPERtontos?
Park Eun-bin lidera como Eun Chae-ni, ao lado de Cha Eun-woo, que vive Lee Un-jeong. Completam o time principal Choi Dae-hoon, como Son Kyung-hoon, e Im Seong-jae, como Kang Ro-bin. Kim Hae-sook e Son Hyun-joo também estão no elenco. A direção é de Yoo In-sik, o mesmo de Uma Advogada Extraordinária (2022), e o roteiro é de Huh Dah-joong.
Os SUPERtontos tem cena pós-créditos?
Tem, e fica no oitavo episódio. Então não dá pra fechar a Netflix assim que os créditos começam.
Os SUPERtontos é baseado em alguma história do Stan Lee?
Começou assim, mas não terminou assim. Em 2018, o projeto foi anunciado como adaptação de uma ideia inédita do Stan Lee, chamada The B-Team, que nunca chegou a virar quadrinho. A semente era parecida: heróis de segunda linha que não controlam os próprios poderes. Quando a produção saiu do papel de verdade, o título mudou e a série virou uma história original.
Haeseong existe? Onde foi gravado Os SUPERtontos?
Haeseong é uma cidade fictícia. As gravações passaram por vários cantos da Coreia do Sul, como Taean, Gangneung, Pohang, Geoje, Ulleungdo e Seoul. Muitas das cenas de bairro foram filmadas nas ruelas da região de Jeungsan-seo-gil, em Seul. O visual de cidade pequena que a gente vê na tela é, em boa parte, um pedaço da capital.

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