Acampamento Miasma: terror LGBTQIA+ com sátira e referências ao gênero slasher

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Murilo Martouza

Um slasher queer que brinca com as convenções do terror e mergulha na metalinguagem, no desejo e na sátira. Mas será que todas essas ideias funcionam tão bem na tela?

Imagem promocional do filme Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, com Billy (Gillian Anderson) e Kris (Hannah Einbinder) de perfil e de frente uma pra outra em meio a uma paisagem montanhosa com floresta ao fundo e um céu em tons rosados.

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, 2026) mistura sátira, desejo queer junto de slasher, subgênero do terror que explicarei abaixo, e brinca com as convenções do gênero. Eu ainda não conhecia esse filme, mas comecei a ver vários conhecidos assistindo e compartilhando opiniões positivas no Instagram. Por isso, a curiosidade logo bateu.

Foi quando descobri que era um filme de um dos meus subgêneros de terror favoritos, com representatividade queer e um casal sáfico. Pra completar, uma das protagonistas era interpretada por Gillian Anderson, atriz que eu amo desde Arquivo X (The X-Files, 1993). Não teve jeito: precisei assistir o filme, escrito e dirigido por Jane Schoenbrun.

Qual é a história de Acampamento Miasma?

Kris (Hannah Einbinder) é uma cineasta queer apaixonada pela franquia de terror Acampamento Miasma, que perdeu o fôlego depois de várias continuações mal recebidas. Quando ganha a oportunidade de comandar um novo capítulo da saga, ela decide procurar Billy (Gillian Anderson), a atriz que interpretou a icônica sobrevivente do filme original e que hoje vive reclusa, longe dos holofotes.

O encontro entre as duas rapidamente ultrapassa os limites de uma simples produção cinematográfica. Enquanto Kris tenta trazer a franquia de volta à vida, ela e Billy mergulham em uma relação marcada por desejo, obsessão, medo e delírio. Entre referências ao terror clássico e situações cada vez mais estranhas, o filme questiona como as histórias que consumimos influenciam nossa sexualidade, nossos medos e a maneira como enxergamos a nós mesmos.

O que torna Acampamento Miasma diferente?

O que é slasher e como o filme subverte o gênero?

O slasher é um subgênero do terror que costuma acompanhar um assassino perseguindo e matando suas vítimas, geralmente adolescentes e jovens adultos. Filmes como Halloween: A Noite do Terror (Halloween, 1978), Sexta-Feira 13 (Friday The 13th, 1980) e Pânico (Scream, 1996) ajudaram a popularizar as convenções desse subgênero, com perseguições, mortes criativas, personagens estereotipados e a famosa “final girl”, a sobrevivente que enfrenta o assassino e chega ao desfecho da história.

O que Jane Schoenbrun faz aqui é brincar com essas regras e questionar o que elas representam. A velha ideia de que personagens que fazem sexo acabam mortos, por exemplo, ganha outro significado quando o filme coloca o desejo feminino e a sexualidade queer no centro da narrativa. Em vez de apenas reproduzir os clichês do slasher, Acampamento Miasma usa a metalinguagem pra refletir sobre o próprio cinema de terror, suas convenções e o histórico de repressão que acompanha muitas dessas histórias.

A aclamação da crítica e os prêmios do filme

Acampamento Miasma teve sua estreia mundial como filme de abertura da mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2026. Ele conquistou a Queer Palm, prêmio dedicado a obras que exploram temas LGBTQIA+, perspectivas feministas ou questionam normas de gênero. O longa também venceu o Prêmio do Público de Melhor Filme Narrativo no Frameline, festival de cinema LGBTQIA+ de São Francisco.

A recepção da crítica também foi bastante positiva: no Rotten Tomatoes, o filme alcançou 94% de aprovação entre críticos na consulta realizada para esta matéria. Entre os elogios, destacam-se a inventividade visual, as atuações centrais e a maneira como a diretora combina homenagem ao slasher, humor e reflexão sobre desejo e identidade queer.

Acampamento Miasma tem ótimas ideias, mas me perdeu durante a execução

Kris (Hannah Einbinder), de óculos e expressão pensativa com a mão no pescoço, aparece em primeiro plano, enquanto Billy (Gillian Anderson), loira e vestida de rosa, está sentada ao fundo em uma cena de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte.

Acampamento Miasma é um filme esquisito, e isso me fez gostar um pouco mais dele. Não porque a estranheza seja necessariamente uma qualidade, mas porque eu gosto de filmes esquisitos, no geral. Entre os pontos altos, destaco as atuações, o humor, a representatividade sáfica e a proposta de subverter o slasher com uma boa dose de metalinguagem. É um filme que tem muito a dizer, mesmo quando nem tudo funciona tão bem quanto deveria.

As atrizes que interpretam as protagonistas estão ótimas. Gillian Anderson entrega um humor "high camp", exagerado e teatral, por meio de caras, bocas, roupas, falas e seu tom de voz. Já Hannah Einbinder convence como Kris e brilha num excelente timing cômico, equilibrando humor, vulnerabilidade e obsessão. A química entre as duas também sustenta a relação sáfica do filme, que abre espaço pra discussões interessantes sobre desejo feminino, etarismo e repressão sexual. É um dos aspectos que mais me chamaram atenção.

A proposta de subverter o slasher rende ótimas piadas com os clichês do gênero, como a velha regra de que quem transa acaba morrendo nos filmes de terror. O problema é que, pra mim, a ideia da subversão é mais interessante do que a execução. O ritmo do filme é inconstante, com trechos muito lentos que pouco acrescentam ao enredo e me deixaram entediado. O filme também mergulha no surrealismo, algo que acho interessante como conceito, mas que me pegou de surpresa e acabou me afastando da história durante o desenvolvimento. Senti falta de uma narrativa mais coesa pra conectar tantas ideias ambiciosas.

Confesso que esperava um terror mais convencional, daqueles que assisto pra me divertir, e recebi algo bem mais complexo, cheio de referências e camadas de interpretação. Talvez essa expectativa tenha influenciado negativamente minha experiência, porque o filme exige mais do que eu estava disposto a oferecer naquele momento. Não desgostei completamente e reconheço vários elementos positivos na narrativa. Ainda assim, talvez eu precise reassistir no futuro pra tirar o gosto estranho de ter encontrado o filme certo na hora errada.

Acampamento Miasma vale seu tempo?

Acampamento Miasma vale seu tempo se você gosta de terror slasher pra além do básico, curte destrinchar filmes e adora encontrar referências a torto e a direito. Também acho uma ótima pedida pra mulheres sáficas, já que o longa explora o desejo e a repressão sexual feminina sem deixar esses temas de lado em favor do terror.

Se você gosta de Eu Vi o Brilho da TV (I Saw the TV Glow, 2024), outro filme de Jane Schoenbrun, curte a metalinguagem da franquia Pânico e é fã da franuia Sexta-Feira 13, uma das grandes inspirações do longa, Acampamento Miasma pode funcionar muito bem pra você.

O filme pode ser difícil de digerir e não acho que vá agradar todo mundo. Mas dê o play se você estiver a fim de se aventurar por uma história estranha, provocadora e cheia de ideias!

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte | 2026 | Direção: Jane Schoenbrun | 1h 52min | Classificação: 18+ | Onde assistir: Apple TV, MUBI e Prime Video (compra e aluguel).

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