Os Sapatinhos Vermelhos: dançar ou viver, eis a questão

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Dani Vieira

Um clássico de 1948 sobre vocação, obsessão e a escolha que nenhum de nós quer ter que fazer. Os Sapatinhos vermelhos vão captar toda sua atenção!

Close nos pés de uma bailarina com sapatilhas vermelhas e saia branca de ballet em cena de Os Sapatinhos Vermelhos

A gente chegou em Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes) pelo caminho mais improvável: um livro de psicologia. Quem leu Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, vai se lembrar do capítulo sobre os sapatinhos vermelhos, um conto popular que a autora usa pra falar sobre a criatividade sufocada, sobre a voz interior que a gente silencia pra agradar o mundo. 

E então veio a curiosidade: existe um filme com esse nome? Existe, é de 1948 e um dos preferidos do diretor Martin Scorsese.

Sobre o que é esse filme, afinal?

Os Sapatinhos Vermelhos é um drama britânico dirigido pela dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, filmado em Technicolor, uma técnica que usa cores vivas e era um espetáculo à parte na época, numa época em que isso era um espetáculo à parte. 

A história acompanha Victoria Page (Moira Shearer), uma bailarina jovem e talentosa que entra para a companhia do empresário Boris Lermontov, um homem obcecado pela arte a ponto de considerar que é a única coisa real na vida. 

A gente logo percebe que Lermontov não é um vilão no sentido convencional. Ele é algo perturbador: alguém que acredita absolutamente no que faz.

Quando Victoria se apaixona pelo compositor Julian Craster (Marius Goring), a tensão não é entre mocinho e vilão. É entre dois amores impossíveis de conciliar: o amor pela arte e o amor por uma pessoa. O filme tem a coragem de não escolher um lado.

Por que esse filme ainda funciona quase 80 anos depois

A resposta mais honesta é: porque ele fala de uma coisa que não envelhece. A pergunta central de Os Sapatinhos Vermelhos é a mesma do conto, de Hans Christian Andersen, e não o de Clarissa Estés, embora os dois se misturam na memória.

O que acontece quando você coloca os sapatinhos e não consegue mais parar de dançar?

No conto de fadas, os sapatos são uma maldição literal. No filme, são uma metáfora para a vocação, para aquele chamado que não pede licença e não negocia. Victoria não é uma personagem passiva. 

Ela quer dançar tanto quanto Lermontov quer que ela dance. O conflito real está dentro dela, não entre ela e os homens ao redor.

O ballet que marcou o cinema

No meio do filme, acontece algo que não tem igual na história do cinema clássico: uma apresentação de ballet de quase 17 minutos. Ela mistura palco e fantasia de um jeito que o cinema raramente fez antes ou depois.

Victoria não dança num palco fixo. A montagem de Powell e Pressburger a leva por uma sequência de cenários que existem só no sonho ou no pesadelo. O espaço se transforma enquanto ela dança. Os truques de câmera, os cortes, as projeções. É um cinema que se recusa a imitar o teatro e insiste em ser cinema do jeito mais pleno possível.

A gente ficou boquiaberto. Martin Scorsese disse que Os Sapatinhos Vermelhos foi o filme que mais o influenciou em toda a carreira. Dá para entender.

Moira Shearer: bailarina real, atriz de verdade

A atriz Moira Shearer na sequência famosa de 17 minutos do ballet de Os Sapatinhos Vermelhos. A imagem mostra uma mulher trajada como bailarina, dançando e em sua frente há um par de sapatilhas vermelhas.

Uma das coisas que a gente descobriu pesquisando é que Moira Shearer era bailarina de verdade, prima ballerina, não atriz treinada para parecer bailarina. Isso aparece na tela de um jeito que nenhum treino consegue imitar. Quando ela dança, é real. Quando ela sofre, é real do mesmo jeito.

O que surpreende é que ela também entrega tudo nas cenas dramáticas, onde não há dança nenhuma. A cena em que Victoria tenta explicar pra Lermontov por que o amor importa tanto quanto a arte é uma das cenas mais honestas que a gente já assistiu em um filme daquela época. Ela não pede permissão. Ela afirma.

O Technicolor como personagem

Vale falar sobre as cores, porque Os Sapatinhos Vermelhos sem o Technicolor seria outro filme. O diretor de fotografia Jack Cardiff, que ganhou o Oscar por esse trabalho, usa as cores de um jeito expressivo, quase emocional. Os vermelhos pulsam. Os azuis pesam. O figurino de Victoria no ballet não é só bonito: é narrativo.

A gente recomenda assistir numa tela boa, com luz apagada. O filme foi restaurado pela UCLA Film & Television Archive e a cópia disponível hoje é deslumbrante. Parece recente.

O que o livro de Clarissa Estés tem a ver com isso tudo?

Muita coisa. E ao mesmo tempo, as histórias são diferentes. No capítulo de Mulheres que Correm com os Lobos, os sapatinhos vermelhos representam uma criatividade selvagem que foi capturada, domada e transformada em compulsão: a menina que queria dançar para si mesma acaba dançando para sempre, sem controle, porque perdeu a conexão com a própria alma.

No filme, o arco é parecido mas não idêntico. Victoria não perde o controle da dança, ela perde a possibilidade de escolher. E é exatamente aí que o filme dói mais: não quando as coisas saem errado, mas quando a gente percebe que nenhuma das escolhas era realmente livre.

Ler o livro antes do filme adiciona uma camada. Assistir o filme depois do livro adiciona outra. A gente fez a segunda sequência e saiu pensando nas duas obras juntas por dias.

Vai dar o play?

Os Sapatinhos Vermelhos é um dos filmes mais bonitos que a gente já assistiu, visualmente, emocionalmente, narrativamente. Tem 134 minutos que não pesam. Tem uma sequência de ballet que muda o referencial de quem assiste. Tem uma pergunta central que continua sem resposta fácil depois que os créditos sobem.

Não precisa gostar de ballet. Não precisa ter lido nada antes. 

Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes) | 1948 | Direção: Michael Powell e Emeric Pressburge | 2h14 min | Classificação: 14+ 

Onde assistir: Netflix, Globoplay, Claro TV+.

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