Daemons do Reino das Sombras: uma história que se revela aos poucos

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Camille Pezzino

Daemons do Reino das Sombras ou Daemons of the Shadow Realm, criado por Hiromu Arakawa, é uma fantasia sombria de ritmo lento. Veja se vale seu tempo conhecer os tsugai.

Yuru (Kensho Ono) com arco e flecha ao lado de Asa (Yume Miyamoto) em meio a flores de lírio-aranha-vermelho, arte-chave de Yomi no Tsugai.

Daemons do Reino das Sombras (Yomi no Tsugai) ou Daemons of the Shadow Realm é um tipo de anime que vai progredindo aos poucos, desenvolvendo os personagens episódio a episódio. O ritmo é lento, por isso é preciso ter atenção: se você se distrair, acaba perdendo detalhes e ficando confuso com o que está acontecendo na tela.

O que acontece em Daemons do Reino das Somrbas

Yuru (Kensho Ono) e Asa (Yume Miyamoto) são gêmeos nascidos “entre o dia e a noite”, numa vila isolada nas montanhas. Cabe a eles o direito de comandar os tsugai, entidades sobrenaturais que nascem em pares. Separados ainda jovens, sem saber a verdade sobre a própria origem, os dois precisam se reencontrar e reivindicar esse destino, num mundo movido por segredos, disputas de clã e criaturas que ninguém mais enxerga.

Um mundo antigo dentro do contemporâneo

Apesar de se passar nos dias de hoje, Yomi no Tsugai segue padrões de comportamento, estilo e crença de vida muito mais próximos do Japão medieval. Isso muda tudo: o valor de uma vida ali é bem menor do que a nossa percepção moderna consideraria aceitável, e entender isso é essencial pra acompanhar essa história. No fundo, a única coisa que os gêmeos realmente querem é paz, só que pra isso acontecer, os mistérios da trama precisam ser resolvidos.

Yuru, Asa e o espelho que é o Ken

Yuru, o protagonista, é do tipo que não entende bem o que está acontecendo ao redor, mas tem instintos afiadíssimos. A moral dele é questionada o tempo todo, principalmente por Ken (Natsumi Fujiwara), o único personagem de fora daquele universo que carrega uma moralidade parecida com a nossa. Essa comparação constante torna Yuru bem mais brutal do que outros protagonistas da mangaká Arakawa, como o próprio Edward, de Fullmetal Alchemist.

Já Asa fica no meio do caminho: ela sabe que as coisas não estão certas do jeito que são resolvidas, tenta se manter numa linha mais correta, mas entende que isso é impossível dentro das circunstâncias em que vive. É carismática, mas está longe de ser o Sol da história do jeito que Yuru é.

Uma curiosidade que está escondida no próprio título

“Tsugai” (番い) não é um termo inventado pro anime: na língua japonesa, é a palavra usada pra descrever um par de animais que acasalam, como um casal de pássaros que fica junto pela vida toda. Diferente da ideia ocidental de “alma gêmea”, que sugere uma metade completando a outra, o conceito de tsugai é sobre duas coisas inteiras, diferentes, que funcionam juntas por natureza, não por escolha ou acaso.

Isso conversa direto com a simbologia de Yuru e Asa, descritos como “as crianças que separam o dia e a noite”. A ideia de duplas complementares que resumem uma força maior é bem próxima de outro par famoso da mitologia japonesa: Amaterasu, a deusa do sol, e Tsukuyomi, o deus da lua. Da mesma forma que Yuru e Asa, eles são irmãos que dividem entre si o dia e a noite. A autora da obra usa esse tipo de simbolismo o tempo todo, aparecendo até nos títulos dos episódios pra reforçar essa lógica de dualidade e caminhos opostos.

Nem heróis, nem vilões

Não existe bem ou mal em Yomi no Tsugai, e isso fica cada vez mais claro conforme a história avança: todos os personagens estão ali protegendo suas famílias e seus próprios interesses. A maioria deles carrega alguma quebra interna e, desde o primeiro episódio, a narrativa não esconde que tudo gira em torno de poder e interesse. 

A maior representação disso é Hikaru Kagemori (Kappei Yamaguchi), herdeiro da Família Kagemori, que desenha mangá e não demonstra vontade nenhuma de assumir a liderança do clã. Os gêmeos só estão no centro do furacão por causa desse pessoal ganancioso e violento.

Vale seu tempo?

Vale muito, muito mesmo, mas só se você gosta de histórias mais lentas, que se desenvolvem aos poucos, com personagens de caráter duvidoso e que não entregam tudo de mão beijada. O ritmo lembra bastante Frieren e a Jornada para o Além (Sōsō no Frieren, 2023), ficando bem distante de Fullmetal Alchemist, apesar do amor entre irmãos continuar sendo um dos pontos centrais da trama.

Então, se você gosta de Psycho-Pass (2012) ou Frieren, pela moralidade quebrada ou o desenvolvimento e ritmo lento, com certeza vai curtir essa dica.

Daemons do Reino das Sombras (Yomi no Tsugai) | 2026 | Direção: Masahiro Andō | 24 episódios (24 minutos por episódio) | Onde assistir: Crunchyroll, Disney+ e Netflix

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