Cleópatra: entre babados e escândalos do passado

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Dani Vieira

Cleópatra (1963) quase quebrou a Fox, teve o affair de Liz e Dick e levou 4 Oscars. Entenda por que vale as 4 horas desse espetáculo de Hollywood.

Cleópatra com cocar dourado e vestimenta egípcia, diante de uma estátua de esfinge, em cena do filme de 1963

Lançado em 1963, Cleópatra é um dos espetáculos mais ambiciosos que Hollywood já produziu, estrelado por um dos casais mais comentados da história do cinema e ainda conta a trajetória de uma das mulheres mais poderosas da Antiguidade.

O que acontece em Cleópatra

O filme acompanha a ascensão e queda de Cleópatra, rainha do Egito Antigo, que usa inteligência política pra se manter no poder em meio ao avanço de Roma. Primeiro, ela seduz e se alia a Júlio César, garantindo o trono com apoio romano. 

Depois da morte dele, volta a jogar o mesmo jogo com Marco Antônio, mas desta vez a aposta é maior: o destino do Egito e a própria vida. 

A história tem a estrutura de uma tragédia clássica: quanto maior o poder conquistado, mais alto o preço a pagar.

Uma rainha que não se encaixa no estereótipo

O filme entrega uma Cleópatra calculista, ambiciosa e política, longe da sedutora unidimensional que o imaginário popular costuma desenhar. Ela negocia poder, manipula alianças e joga com Roma no próprio jogo pra conseguir o que quer. 

Não é uma rainha que depende de afeto: é uma estrategista que usa o afeto como instrumento. Quem gosta de ver personagens femininas com esse tipo de complexidade vai reconhecer algo parecido em filmes como Duas Rainhas (2018).

Rex Harrison interpreta Júlio César com uma frieza que funciona bem ao lado da intensidade de Elizabeth Taylor. Richard Burton entra no segundo ato como Marco Antônio e muda completamente o tom do filme: menos política, mais paixão e muito mais risco. 

A transição entre as duas partes do filme é um dos momentos mais bem resolvidos da narrativa.

O que mais me prendeu foi a riqueza de detalhes em praticamente cada cena. Os figurinos, os cenários, as procissões, nada parece improvisado. A reconstrução visual do Egito e de Roma é do tipo que te faz parar pra olhar. 

Milhares de figurantes, cenários construídos em escala real nos estúdios de Cinecittà e roupas que continuam sendo referência visual até hoje. A entrada triunfal de Cleópatra em Roma, com procissão, estátuas vivas e uma multidão em delírio, rivaliza com as cenas mais grandiosas de Ben-Hur (1959). Ainda funciona seis décadas depois.

O bastidor é tão dramático quanto a trama

O esplendor do filme tem um preço literal. A 20th Century Fox queria um projeto rápido, orçado em 2 milhões de dólares. O valor final passou de 44 milhões, tornando Cleópatra a produção mais cara já feita até então. 

Para ter uma ideia, Ben-Hur, que era considerado o grande épico caro do período, custou menos da metade disso. O cenário de desastres operacionais que explodiu o orçamento é tão dramático quanto qualquer cena do filme.

Liz e Dick: o romance que ofuscou o lançamento

Cleópatra e um general romano sentados à mesa, com taças douradas e flores, em cena do filme de 1963

Foi no set que Elizabeth Taylor e Richard Burton viveram o romance que se tornaria capa de revista no mundo todo, mesmo os dois sendo casados com outras pessoas. A imprensa batizou o casal de Liz e Dick, e o público passou a acompanhar a vida real dos dois com mais avidez do que a trama do filme em si.

Assistir sabendo disso tudo muda a experiência. A tensão entre Cleópatra e Marco Antônio na tela carrega um peso extra que nenhum roteiro conseguiria inventar. É parecido com o efeito de assistir Mr. & Mrs. Smith sabendo da história de Pitt e Jolie, mas multiplicado por dez.

Vale seu tempo?

Vale, e muito. O que me surpreendeu foi perceber que, com quatro horas de duração, o filme nunca parece excessivo. Cada detalhe, cada roupa, cada cenário foi pensado com uma atenção que hoje seria impossível de replicar. 

Cleópatra entrega espetáculo, política, paixão e um dos bastidores mais comentados de Hollywood, tudo ao mesmo tempo. Esse é o tipo de filme que você assiste uma vez e nunca mais esquece, nem do que aconteceu na tela, nem do que aconteceu fora dela.

Cleópatra | 1963 | Direção:Joseph L. Mankiewicz | 4h11m | Classificação: Livre | Onde assistir: Disney+

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