Ghost Doctor: um dorama clássico que fala de recomeços

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Rafael Gonçalves

Um cirurgião arrogante em coma, um residente genial e travado, além de um hospital cheio de fantasma. Ghost Doctor não inventa nada, mas acerta em cheio quando fala de assuntos inacabados.

Capa do artigo de Ghost Doctor mostrando os dois protagonistas

Ghost Doctor (Médico Fantasma) segue à risca o manual do dorama médico: protagonista genial, hospital em crise, hierarquia podre e uma mocinha que começa contida e termina mostrando toda sua força. Nada aqui é novo. E mesmo assim eu terminei os 16 episódios com a sensação de ter assistido a algo que fala de família e resiliência melhor do que muita série que se leva mais a sério.

Cheguei esperando uma comédia de fantasmas. Encontrei uma série sobre assunto inacabado.

O que a série mostra

Cha Young-min, vivido por Rain, é o cirurgião cardiotorácico mais talentoso do Hospital Universitário Eunsang. Também é o mais arrogante. Um acidente o coloca em coma e o espírito dele fica solto pelos corredores, enxergado por uma pessoa só: Go Seung-tak, o residente que Kim Bum interpreta.

Young-min não passa a série inteira possuindo o corpo do outro. Na maior parte do tempo eles estão lado a lado, discutindo em pé no corredor, com um dos dois invisível pro resto do mundo. Ele entra no corpo de Seung-tak quando não existe outro jeito de salvar o paciente na mesa e quando precisa atravessar a porta do hospital, o que cobra um preço alto.

A fórmula está toda ali, e tudo bem

O talentoso é talentoso demais. A vilania corporativa aparece de terno. A protagonista feminina, Jang Se-jin (Uee), começa como a gentil que engole desaforo e depois mostra força de leoa. Se você já viu doramas médicos, sabe exatamente o que vem em cada bloco.

Isso não me incomodou. A série não finge estar reinventando o gênero, ela só executa bem o que se propõe. E a execução depende quase toda do elenco, que sustenta cada cena com uma convicção que me fez acreditar até no absurdo.

Onde ela me ganhou de vez

O tema real de Ghost Doctor não é medicina, é o que fica pendente quando alguém não teve tempo de resolver. Perdão, recomeço, conversa que ficou pela metade. A série trata o coma como uma sala de espera moral, não como um recurso de roteiro.

E ela é honesta o suficiente para não prometer final feliz pra todos os personagens. O núcleo cômico são pacientes em coma, eles são os fantasmas que circulam pelo hospital aliviando a tensão. Claro que nem todos recebem o desfecho que a gente queria e isso é um lembrete direto de que nem tudo na vida dá certo, e tá tudo bem.

Nenhuma família aqui é perfeita

Esse é o ponto que mais me surpreendeu. Ghost Doctor coloca em cena pais ausentes de tanto trabalhar, heróis de infância que na vida adulta só querem poder e pisam em quem for preciso, traição, arrependimento e filho fora do casamento. São assuntos que doramas costumam tratar com mais pudor.

Aqui eles aparecem quase sem moralismo. O resultado é um hospital cheio de gente que errou e agora precisa decidir o que fazer com isso.

Vale seu tempo?

Vale. Ghost Doctor é previsível na estrutura e generoso no que importa. Se você quer um dorama médico com humor, um cirurgião fantasma implicando com o residente que enxerga espíritos e romance nos dois núcleos, começa por esse. E se você anda pensando em alguma conversa que ficou pela metade com alguém, a série vai te machucar um pouquinho, mas no bom sentido.

Se o que te chamou aqui foi o hospital, Heróis de Plantão usa o mesmo cenário sem nada de sobrenatural: um veterano de guerra montando um centro de traumatologia do zero, com a mesma pegada de equipe se formando no meio do caos. Se o que você procura é um dorama com tema sobrenatural, Advogado Fantasma troca o bisturi pela advocacia e trabalha exatamente a mesma ideia de assunto inacabado, agora em forma de cliente que não consegue seguir em frente. As duas estão na Netflix.

Ghost Doctor (Médico Fantasma) | 2022 | Coreia do Sul | tvN | Direção: Boo Seong-cheol | 16 episódios de cerca de 1h10 | Onde assistir: Netflix

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