Ghost Doctor: um dorama clássico que fala de recomeços
Um cirurgião arrogante em coma, um residente genial e travado, além de um hospital cheio de fantasma. Ghost Doctor não inventa nada, mas acerta em cheio quando fala de assuntos inacabados.

Ghost Doctor (Médico Fantasma) segue à risca o manual do dorama médico: protagonista genial, hospital em crise, hierarquia podre e uma mocinha que começa contida e termina mostrando toda sua força. Nada aqui é novo. E mesmo assim eu terminei os 16 episódios com a sensação de ter assistido a algo que fala de família e resiliência melhor do que muita série que se leva mais a sério.
Cheguei esperando uma comédia de fantasmas. Encontrei uma série sobre assunto inacabado.
O que a série mostra
Cha Young-min, vivido por Rain, é o cirurgião cardiotorácico mais talentoso do Hospital Universitário Eunsang. Também é o mais arrogante. Um acidente o coloca em coma e o espírito dele fica solto pelos corredores, enxergado por uma pessoa só: Go Seung-tak, o residente que Kim Bum interpreta.
Young-min não passa a série inteira possuindo o corpo do outro. Na maior parte do tempo eles estão lado a lado, discutindo em pé no corredor, com um dos dois invisível pro resto do mundo. Ele entra no corpo de Seung-tak quando não existe outro jeito de salvar o paciente na mesa e quando precisa atravessar a porta do hospital, o que cobra um preço alto.
A fórmula está toda ali, e tudo bem
O talentoso é talentoso demais. A vilania corporativa aparece de terno. A protagonista feminina, Jang Se-jin (Uee), começa como a gentil que engole desaforo e depois mostra força de leoa. Se você já viu doramas médicos, sabe exatamente o que vem em cada bloco.
Isso não me incomodou. A série não finge estar reinventando o gênero, ela só executa bem o que se propõe. E a execução depende quase toda do elenco, que sustenta cada cena com uma convicção que me fez acreditar até no absurdo.
Onde ela me ganhou de vez
O tema real de Ghost Doctor não é medicina, é o que fica pendente quando alguém não teve tempo de resolver. Perdão, recomeço, conversa que ficou pela metade. A série trata o coma como uma sala de espera moral, não como um recurso de roteiro.
E ela é honesta o suficiente para não prometer final feliz pra todos os personagens. O núcleo cômico são pacientes em coma, eles são os fantasmas que circulam pelo hospital aliviando a tensão. Claro que nem todos recebem o desfecho que a gente queria e isso é um lembrete direto de que nem tudo na vida dá certo, e tá tudo bem.
Nenhuma família aqui é perfeita
Esse é o ponto que mais me surpreendeu. Ghost Doctor coloca em cena pais ausentes de tanto trabalhar, heróis de infância que na vida adulta só querem poder e pisam em quem for preciso, traição, arrependimento e filho fora do casamento. São assuntos que doramas costumam tratar com mais pudor.
Aqui eles aparecem quase sem moralismo. O resultado é um hospital cheio de gente que errou e agora precisa decidir o que fazer com isso.
Vale seu tempo?
Vale. Ghost Doctor é previsível na estrutura e generoso no que importa. Se você quer um dorama médico com humor, um cirurgião fantasma implicando com o residente que enxerga espíritos e romance nos dois núcleos, começa por esse. E se você anda pensando em alguma conversa que ficou pela metade com alguém, a série vai te machucar um pouquinho, mas no bom sentido.
Se o que te chamou aqui foi o hospital, Heróis de Plantão usa o mesmo cenário sem nada de sobrenatural: um veterano de guerra montando um centro de traumatologia do zero, com a mesma pegada de equipe se formando no meio do caos. Se o que você procura é um dorama com tema sobrenatural, Advogado Fantasma troca o bisturi pela advocacia e trabalha exatamente a mesma ideia de assunto inacabado, agora em forma de cliente que não consegue seguir em frente. As duas estão na Netflix.
Ghost Doctor (Médico Fantasma) | 2022 | Coreia do Sul | tvN | Direção: Boo Seong-cheol | 16 episódios de cerca de 1h10 | Onde assistir: Netflix




