O Passado Nunca Morre: um suspense que só acorda nos últimos 10 minutos

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Rafael Gonçalves

Um thriller que passa uma hora inteira sem dar um único momento de tensão. O Passado Nunca Morre tem um bom final, mas custa muito pra chegar até ele.

Imagem oficial de divulgação do filme O Passado Nunca Morre (My Sister's Bones)

Eu gosto de terror. Gosto até quando o filme demora pra chegar lá, quando aposta no silêncio, na sugestão, naquela sensação de que tem alguma coisa errada e você ainda não sabe o quê. Sento pra assistir, disposto a esperar.

O Passado Nunca Morre (My Sister's Bones) testou essa disposição e ganhou de mim. Passei quase o filme inteiro esperando o suspense começar. Ele começa. E acaba dez minutos depois.

O que prometia ser

A primeira cena me deu esperança de verdade. Tem uma casa antiga numa cidade litorânea inglesa, uma velha senhora sozinha, um barulho que não deveria estar ali. Achei que o filme fosse por um caminho de terror mais direto, talvez até físico, sem precisar do sobrenatural que ele fica flertando o tempo todo.

E a premissa ajudava nessa expectativa. Kate Rafter (Jenny Seagrove) é correspondente de guerra, voltou do Iraque destruída por alguma coisa que aconteceu lá e chega na casa da mãe recém-morta pra arrumar os pertences dela. Aí começa a suspeitar que tem algo acontecendo na casa vizinha. 

Adaptado por Naomi Gibney do romance My Sister's Bones, da britânica Nuala Ellwood, o filme se vende como thriller psicológico com slow burn (narrativa de desenvolvimento lento) e uma virada guardada pro final. Era exatamente o que eu queria assistir.

Kate Rafter (Jenny Seagrove) em uma cena de O Passado Nunca Morre

O que o filme realmente entrega

Um drama familiar. Não é crítica automática, drama familiar pode ser ótimo. Mas é o oposto do que a embalagem prometia. Kate reencontra Sally (Anna Friel), a irmã caçula, alcoolizada e ressentida, que culpa a mais velha por ter ido embora e deixado a família ruir. Tem também Paul (Ben Miles), o cunhado prestativo além da conta, e Hannah, a sobrinha que quis viver a própria vida e sumiu por três anos sem dar notícia.

O problema é a distribuição do tempo. Mais de uma hora se passa só apresentando as duas irmãs e os traumas de cada uma. Elas revivem a dor, se acusam, choram, bebem. Faz parte do luto, entendo a intenção. Só que ali não tem thriller nenhum, muito menos terror. As tentativas de susto se resumem a meia-dúzia de jumpscare e nenhum deles conseguiu me assustar.

Por que não vale seu tempo

O filme não aposta no slow burn, ele abusa. Os diálogos se arrastam, as cenas demoram pra ir a lugar nenhum e a câmera se aproxima devagar de coisas que não recompensam a aproximação. Em 1h21min de projeção, isso vira uma matemática cruel: sobra pouquíssimo espaço pra história que realmente importa.

E ela existe. O plot twist do final me pegou. Passei os últimos dez minutos vidrado na tela, e sim, é bom. Mas talvez ele tenha funcionado justamente porque o filme nunca me fisgou antes: eu estava tão distante da trama que não percebi o que estava sendo construído. Isso não é mérito de roteiro, é consequência de tédio. Histórias sobre trauma já foram contadas com muito mais precisão em O Quarto de Jack (Room - 2016) e 3.096 Dias (3096 Tage - 2013), e nesses casos a construção sustentava o impacto do começo ao fim.

Olga Kurylenko interpretando a Dra. Shaw em O Passado Nunca Morre

Resumindo

Se você quer terror, pula. Se você quer thriller, pula também. Se você quer um drama familiar sobre irmãs que não se resolvem, tem opção melhor em qualquer lugar do catálogo. Jenny Seagrove e Anna Friel seguram o que dá, mas nenhuma atuação salva um roteiro que gasta uma hora pra chegar onde precisava chegar em vinte minutos.

Eu não voltaria pra esse. E olha que assisti até o fim justamente porque queria acreditar naquela primeira cena.

O Passado Nunca Morre (My Sister's Bones) | 2026 | Direção: Heidi Greensmith | 1h21min | Onde assistir: Prime Video

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